Ao longo da última semana, tenho recebido diversas mensagens de pais de jovens atletas que relatam uma situação que, infelizmente, não é nova no universo rioavista.
Segundo os testemunhos recebidos, vários jogadores foram informados de que não continuarão no clube na próxima temporada. Mais do que a decisão em si — que faz parte do futebol e da formação — o que muitos pais contestam é a forma como esse processo foi conduzido, sentindo que faltou consideração pelo tempo, dedicação e anos que os seus filhos entregaram ao Rio Ave.
A maioria dos casos diz respeito precisamente ao último escalão que ainda pertence ao Rio Ave FC, antes da passagem para as equipas sob a responsabilidade da SAD.
E é aqui que surge uma reflexão que merece ser feita.
São muito poucos — para não dizer praticamente nenhuns — os atletas que conseguem fazer a transição direta para as equipas da SAD. Esta realidade não é nova. Tem-se repetido ano após ano desde a constituição da SAD e acaba por criar uma situação difícil de compreender para muitos jovens e respetivas famílias.
Durante anos, estes atletas representam o Rio Ave, treinam com o símbolo ao peito, criam uma ligação ao clube e alimentam o sonho de continuar o seu percurso de formação. Porém, quando chega o momento da transição, muitos veem esse caminho simplesmente interrompido.
Naturalmente, a SAD tem o direito de definir os critérios que entende para a construção das suas equipas. Cabe aos responsáveis técnicos decidir quais os atletas que consideram ter qualidade para continuar o percurso dentro da sua estrutura.
Mas a questão que se coloca é outra.
Qual deve ser o papel do Rio Ave FC perante esta realidade?
O clube tem uma responsabilidade social e formativa na cidade que vai muito além do futebol profissional. Quando um jovem de 12 ou 13 anos deixa de ter espaço na estrutura principal, será que o único caminho possível é a saída definitiva?
Não faria sentido procurar soluções alternativas?
Equipas complementares, equipas de desenvolvimento ou outros projetos sob responsabilidade direta do Rio Ave FC poderiam permitir que muitos destes jovens continuassem a praticar futebol, a representar o clube e a evoluir enquanto atletas.
Nem todos os jogadores têm o mesmo ritmo de crescimento. Nem todos revelam o seu potencial na mesma idade. A história do futebol está repleta de exemplos de atletas que foram dispensados demasiado cedo e que mais tarde acabaram por afirmar-se.
Por isso, mais do que discutir casos concretos, talvez seja altura de discutir o modelo.
Porque quando, ano após ano, praticamente nenhum atleta consegue fazer a ponte entre o Rio Ave FC e as equipas da SAD, a pergunta deixa de ser sobre os jogadores.
Passa a ser sobre o sistema.
Infelizmente, é difícil imaginar uma mudança de rumo. Afinal, qualquer tentativa do Rio Ave FC em construir um caminho alternativo para estes jovens implicaria uma visão própria e autónoma sobre a formação.
E quando a presidente do Rio Ave FC e a presidente da SAD são a mesma pessoa, torna-se naturalmente mais difícil existir alguém que faça contraponto à estratégia atualmente seguida.
Os jovens atletas merecem oportunidades.
E o Rio Ave, enquanto clube formador, merece refletir se está realmente a esgotar todas as formas possíveis de as proporcionar.
