88% das receitas num só contrato: o risco que paira sobre a Rio Ave SAD quando a PT Portugal renegociar os direitos de TV
Por trás dos €23 milhões do Marinakis há outra realidade financeira a manter o clube de pé: os direitos de transmissão televisiva. O Relatório de Contas 2024/25 da Rio Ave SAD mostra que esta receita não é apenas a principal — é também o colateral que sustenta a linha bancária da operação. Uma dupla exposição que torna a SAD particularmente sensível a uma renegociação contratual.
Quando se olha para as contas da Rio Ave SAD, é fácil ficar fixado no Marinakis. Os €23 milhões que entraram do acionista em 2024/25 dominam visualmente o balanço. Mas há uma outra peça, menos visível, que sustenta o dia-a-dia da operação e merece tanta atenção como o investidor: o contrato de direitos de transmissão televisiva com a PT Portugal. Este contrato não é apenas a maior fonte de receita do clube — é também o «colateral» que permite à SAD ir buscar dinheiro aos bancos. E é nesta dupla função que se esconde o risco mais subestimado das contas.
A peça do puzzle: o que diz exatamente o relatório
O Relatório e Contas 2024/25 da SAD identifica duas linhas que, juntas, contam a história. A primeira é a Demonstração de Resultados (pág. 11), no detalhe das receitas operacionais:
Três anos seguidos com uma receita praticamente idêntica, sempre acima dos €5 milhões. Sinal claro de que existe um contrato plurianual em vigor com valor fixo anual.
A segunda linha aparece na Nota 13 — Financiamentos Obtidos (pág. 33-34), e é aí que percebemos que o contrato faz dupla função:
Em linguagem corrente: a SAD entregou ao banco os direitos de receber, a prazo, a parte que a PT Portugal lhe deve por força do contrato de TV. Em troca, recebeu o dinheiro adiantado. Os €5.511.805 que aparecem como dívida bancária são exatamente o saldo dessa antecipação que ainda falta pagar.
A dupla exposição: receita e colateral, no mesmo contrato
Este ponto é decisivo e raramente é compreendido. Vamos por partes:
1. A PT Portugal (proprietária da MEO e da Sport TV) tem um contrato com a Rio Ave SAD para transmitir os jogos. Esse contrato gera para a SAD uma receita de cerca de €5 milhões por ano, paga em prestações ao longo da época.
2. O clube precisa do dinheiro mais cedo — para pagar salários, transferências, fornecedores. Em vez de esperar pelas prestações da PT Portugal, vai ao banco.
3. O banco aceita adiantar o dinheiro com uma condição: a SAD «cede» (transfere) ao banco o direito de cobrar à PT Portugal os pagamentos futuros. A partir desse momento, a PT Portugal paga ao banco e o banco vai descontando o adiantamento.
4. Resultado: a SAD recebe a maior parte do dinheiro adiantado, mas durante meses não vê uma única transferência da PT Portugal cair na conta — porque está a ser usada para amortizar o adiantamento bancário, mais juros.
O problema desta arquitetura é que a mesma fonte sustenta duas posições simultâneas: é o que mais contribui para as receitas operacionais (88% do total de «Vendas e prestações de serviços», quase tudo o que a SAD factura) E é o colateral que permite à SAD ir buscar liquidez ao sistema bancário. Se a primeira cair, a segunda cai automaticamente — e não há por onde compensar.
O preço da liquidez: juros que triplicaram
Há um sinal de alerta adicional escondido nas notas financeiras (Nota 26, pág. 11). Mesmo com a dívida bancária total a manter-se estável entre os dois anos (€5,95 M em 2023/24 → €5,51 M em 2024/25), os juros pagos pela SAD triplicaram:
Esta subida brutal do custo do dinheiro num ano em que a Euribor até baixou diz-nos que o produto bancário usado pela SAD se tornou mais caro relativamente ao que era antes. Quando chegar a renegociação do contrato com a PT Portugal — momento em que o colateral é, na prática, posto em causa — é razoável esperar que os bancos exijam condições ainda mais conservadoras (taxas mais altas, garantias adicionais, prazos mais curtos).

