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88% das receitas da SAD em 2024/2025, advêm dos direitos televisivos

Investigação · As contas do Rio Ave

88% das receitas num só contrato: o risco que paira sobre a Rio Ave SAD quando a PT Portugal renegociar os direitos de TV

Por trás dos €23 milhões do Marinakis há outra realidade financeira a manter o clube de pé: os direitos de transmissão televisiva. O Relatório de Contas 2024/25 da Rio Ave SAD mostra que esta receita não é apenas a principal — é também o colateral que sustenta a linha bancária da operação. Uma dupla exposição que torna a SAD particularmente sensível a uma renegociação contratual.

Quando se olha para as contas da Rio Ave SAD, é fácil ficar fixado no Marinakis. Os €23 milhões que entraram do acionista em 2024/25 dominam visualmente o balanço. Mas há uma outra peça, menos visível, que sustenta o dia-a-dia da operação e merece tanta atenção como o investidor: o contrato de direitos de transmissão televisiva com a PT Portugal. Este contrato não é apenas a maior fonte de receita do clube — é também o «colateral» que permite à SAD ir buscar dinheiro aos bancos. E é nesta dupla função que se esconde o risco mais subestimado das contas.

€ 5,04 Mreceita anual dos direitos de TV (24/25)
88%do total «Vendas e prestações de serviços»
€ 5,51 Mlinha bancária antecipada sobre o contrato
+ 264%juros pagos vs ano anterior

A peça do puzzle: o que diz exatamente o relatório

O Relatório e Contas 2024/25 da SAD identifica duas linhas que, juntas, contam a história. A primeira é a Demonstração de Resultados (pág. 11), no detalhe das receitas operacionais:

«Direitos de transmissão — 24/25: 5 041 666,68 € · 23/24: 5 150 000,04 € · 22/23: 5 149 999,96 €»
Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Detalhe das Vendas e Prestações de Serviços, pág. 5

Três anos seguidos com uma receita praticamente idêntica, sempre acima dos €5 milhões. Sinal claro de que existe um contrato plurianual em vigor com valor fixo anual.

A segunda linha aparece na Nota 13 — Financiamentos Obtidos (pág. 33-34), e é aí que percebemos que o contrato faz dupla função:

«Na rubrica "Outros Empréstimos Bancários", reflete, a 30 de junho de 2025 e 30 de junho de 2024, a responsabilidade inerente ao contrato celebrado relativo à cessão de parte dos créditos de que a Sociedade é titular no âmbito do contrato de cedência, à PT PORTUGAL, SGPS, S.A. dos direitos de transmissão televisiva.»
Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Anexo, Nota 13, pág. 34

Em linguagem corrente: a SAD entregou ao banco os direitos de receber, a prazo, a parte que a PT Portugal lhe deve por força do contrato de TV. Em troca, recebeu o dinheiro adiantado. Os €5.511.805 que aparecem como dívida bancária são exatamente o saldo dessa antecipação que ainda falta pagar.

A dupla exposição: receita e colateral, no mesmo contrato

Este ponto é decisivo e raramente é compreendido. Vamos por partes:

Como funciona, em quatro tempos

1. A PT Portugal (proprietária da MEO e da Sport TV) tem um contrato com a Rio Ave SAD para transmitir os jogos. Esse contrato gera para a SAD uma receita de cerca de €5 milhões por ano, paga em prestações ao longo da época.

2. O clube precisa do dinheiro mais cedo — para pagar salários, transferências, fornecedores. Em vez de esperar pelas prestações da PT Portugal, vai ao banco.

3. O banco aceita adiantar o dinheiro com uma condição: a SAD «cede» (transfere) ao banco o direito de cobrar à PT Portugal os pagamentos futuros. A partir desse momento, a PT Portugal paga ao banco e o banco vai descontando o adiantamento.

4. Resultado: a SAD recebe a maior parte do dinheiro adiantado, mas durante meses não vê uma única transferência da PT Portugal cair na conta — porque está a ser usada para amortizar o adiantamento bancário, mais juros.

O problema desta arquitetura é que a mesma fonte sustenta duas posições simultâneas: é o que mais contribui para as receitas operacionais (88% do total de «Vendas e prestações de serviços», quase tudo o que a SAD factura) E é o colateral que permite à SAD ir buscar liquidez ao sistema bancário. Se a primeira cair, a segunda cai automaticamente — e não há por onde compensar.

O preço da liquidez: juros que triplicaram

Há um sinal de alerta adicional escondido nas notas financeiras (Nota 26, pág. 11). Mesmo com a dívida bancária total a manter-se estável entre os dois anos (€5,95 M em 2023/24 → €5,51 M em 2024/25), os juros pagos pela SAD triplicaram:

Juros e gastos similares suportados pela SAD
Aumento de +264% num so ano EUR 201 599 2023/24 EUR 733 156 2024/25 Fonte: Relatorio e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD, Nota 26, pag. 11
Mesmo com a divida bancaria praticamente igual em valor absoluto, o custo financeiro multiplicou-se por 3,6. Possiveis explicacoes: condicoes mais caras na nova linha de antecipacao de TV; maior utilizacao media ao longo do ano; inclusao de juros sobre dividas a outros clubes em transferencias.

Esta subida brutal do custo do dinheiro num ano em que a Euribor até baixou diz-nos que o produto bancário usado pela SAD se tornou mais caro relativamente ao que era antes. Quando chegar a renegociação do contrato com a PT Portugal — momento em que o colateral é, na prática, posto em causa — é razoável esperar que os bancos exijam condições ainda mais conservadoras (taxas mais altas, garantias adicionais, prazos mais curtos).

Fontes: Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave Futebol Clube — Futebol, SAD (publicado em rioavefc.pt), em particular o detalhe de Vendas e Prestações de Serviços (pág. 5), a Demonstração de Resultados (pág. 11), a Demonstração de Fluxos de Caixa (pág. 12), as Notas 13 «Financiamentos Obtidos» (pág. 33-34), 14 «Instrumentos Financeiros» (pág. 34) e 26 «Juros e gastos similares» (pág. 41), aprovado pelo Conselho de Administração a 29/09/2025 e certificado pelo ROC José Luís Pinto de Azevedo a 26/11/2025. Este artigo foi construído com a ajuda do Claude.ai