28.5.26

A relação da RAH com o Rio Ave: informação que até agora era desconhecida

O dinheiro grego no Rio Ave — Reis do Ave
Investigação · Maio de 2026

O dinheiro grego no Rio Ave: o que sabemos da RAH Sports e do seu controlo do clube

Quem são os novos donos da Rio Ave SAD, quanto pagaram pelo clube, como continuam a meter dinheiro lá dentro e o que ainda ninguém nos contou. Um guia simples, com os números, para perceber a operação que mudou a vida da SAD.

Quando, no início de 2024, o Rio Ave Futebol Clube se transformou de SDUC em SAD para abrir a porta a um investidor de fora, muita gente em Vila do Conde percebeu que algo grande estava a acontecer. O que talvez não tenha ficado tão claro foi quem comprou o clube, por quanto, e como é que esse dinheiro tem entrado nas contas da SAD desde então. Este artigo tenta responder a estas perguntas com base nos documentos oficiais que estão disponíveis no registo comercial cipriota — onde mora, juridicamente, a empresa que hoje controla 80% (ou até mais) da SAD do Rio Ave.

80% (no mínimo)do capital da Rio Ave SAD
€15,86 Minvestidos só em 2024 (Alexandrina tinha anunciado + de 20M)
€38,80 Mcapital da RAH em mai/2026
× 38 795crescimento do capital em 27 meses

Quem é, afinal, a RAH Sports?

A RAH Sports Investments Limited é uma empresa registada em Chipre, no dia 25 de janeiro de 2024. O nome não é por acaso: «RAH» são, com grande probabilidade, as iniciais de Rio Ave Holding («holding» é apenas o nome técnico para uma empresa cuja única função é deter participações noutras empresas — não fabrica nada, não vende nada, serve só para ser dona).

Tem um único dono: Miltiadis Marinakis, cidadão grego, nascido a 3 de novembro de 1999. Por outras palavras: à data em que ficou com a Rio Ave SAD entre mãos, este senhor tinha 24 anos. Mas o apelido não é desconhecido. Miltiadis é filho de Evangelos Marinakis, o magnata grego do shipping que também é dono do Olympiacos (Grécia) e do Nottingham Forest (Inglaterra, hoje na Premier League). A casa dos Marinakis em Atenas — Akti Themistokleous, no Pireu — é o mesmo bairro onde está o império dos navios da família, e é a morada que aparece como residência oficial de Miltiadis nos papéis da RAH.

«The Company is controlled by a non Cyprus tax resident individual, who owns 100% of the Company's shares.»
Annual Report 2024 da RAH Sports — Nota 22 «Related party transactions», pág. 29

Ou seja: o Rio Ave entrou para um portefólio de futebol que já tinha um clube na Grécia e um em Inglaterra. Faz parte daquilo a que no estrangeiro se chama «multi-club ownership» — quando o mesmo dono tem vários clubes, em vários países, a trabalhar como peças encaixadas.

A árvore do controlo
Miltiadis Marinakis cidadão grego · acionista único 100% RAH Sports Investments Limited Chipre · HE 455805 · constituída em 25/01/2024 capital atual: € 38 795 000 80% Rio Ave Futebol Clube SAD Portugal · participação em competições profissionais de futebol
Estrutura simplificada da posse do Rio Ave segundo as Demonstrações Financeiras 2024 da RAH. Os 20% restantes do capital da SAD estão fora do perímetro da RAH e não vêm identificados nos documentos cipriotas.

Como é que a empresa adquiriu 80% do Rio Ave SAD

A operação parece complicada, mas decompõe-se em poucos passos:

1. O Rio Ave Futebol Clube — a coletividade, a associação dos sócios — tinha o futebol profissional dentro de uma SDUC, ou seja, uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas. Isso é uma figura jurídica em que o clube é o único dono do futebol. Quando se quer abrir a porta a um investidor externo, tem de se transformar essa SDUC numa SAD (Sociedade Anónima Desportiva), porque só uma SAD permite ter várias pessoas com ações de uma equipa.

2. No dia 25 de janeiro de 2024 — exatamente na altura em que se estava a desbloquear o lado português — a RAH Sports foi constituída em Nicósia, capital de Chipre. Foi montada com 1 000 ações de €1 cada, no valor total de €1 000. Estamos a falar do capital social mínimo apenas para abrir as portas.

3. Assim que ficou pronta, a RAH meteu mãos à obra. Foi à recém-criada Rio Ave SAD e ficou com 80% do capital. Ficando o próprio Rio Ave Futebol Clube (o clube-mãe), com a restante parte.

«Name: RIO AVE FUTEBOL CLUBE — Country of incorporation: Portugal — Principal activities: Participation in professional football events — Holding: 80% — 15 855 798 €»
Annual Report 2024 da RAH Sports — Nota 14 «Investments in subsidiaries», pág. 26

Quanto custou a entrada dos 80%?

É aqui que ficamos a olhar para os números pelos olhos dos auditores. Lembre-se que Alexandrina Cruz garantia que eram 20.5 Milhões até Junho de 2024. As contas oficiais da RAH (assinadas pelo auditor cipriota DMK Accountants em março de 2026) deixam o cálculo bem claro:

A composição dos €15,86 M (2024)
€ 12,75 M · aquisição em dinheiro € 3,11 M (suprimentos) 80,4% desembolso direto para entrar com 80% do capital 19,6% suprimentos convertidos em capital ainda em 2024 TOTAL: € 15,86 M — valor a que o auditor «não conseguiu chegar» (ver mais à frente)
Fonte: Annual Report 2024 da RAH Sports, Notas 14 e 15, pág. 26, e Cash Flow Statement, pág. 14.

Dinheiro pago em 2024 para comprar a participação na Rio Ave SAD: €12 749 970 (perto de €12,75 milhões).

Empréstimos que a RAH ainda em 2024 fez à SAD, com juros: €3 075 144 de principal + €30 684 de juros = €3 105 828 (cerca de €3,11 milhões).

Esses €3,11 milhões foram, no mesmo ano, transformados em mais ações da SAD — em vez de a SAD devolver o dinheiro como empréstimo, a RAH «trocou» o que tinha a receber por mais participação. Esta operação tem um nome: chama-se capitalização de suprimentos. Suprimento é apenas a palavra técnica para um empréstimo que um dono faz à sua empresa; capitalizar é convertê-lo em capital próprio, ou seja, transformá-lo em ações.

Total injetado na Rio Ave SAD em 2024: €15 855 798 — cerca de €15,86 milhões. Mas estes 3,11 milhões terão exposto (alegadamente) o Rio Ave FC a uma menor fatia na percentagem da SAD (basta o grego querer e nem um 1€ entra para o RAFC para deter mais percentagem)

É este o valor que aparece registado nas contas da RAH como sendo o que vale, hoje, a sua participação no clube. É também o ativo mais importante que a empresa cipriota tem nos seus livros: representa quase 89% de tudo o que ela é.

A entrada do dinheiro não parou — pelo contrário, multiplicou-se

Aqui está um pormenor que muita gente não tem percebido: a operação não acabou em 2024. Pelo contrário. Entre o final desse primeiro ano e maio de 2026, a RAH recebeu mais €22,53 milhões de capital do seu dono, Miltiadis Marinakis. Ou seja, a empresa cipriota saltou de €16,265 milhões de capital em dezembro de 2024 para €38,795 milhões em maio de 2026.

A escalada do capital da RAH · abr/2024 → mai/2026
10M 20M 30M 40M abr/24 ago/24 dez/24 abr/25 ago/25 mai/26 €16,3 M (fim 2024) €38,8 M (mai/26) € (em milhões)
Cada ponto é uma operação de aumento de capital (HE14) ou emissão de novas ações (HE12) registada em Chipre. A linha não recua nunca: o capital só cresce. (Reforçar: o aumento do capital é na sociedade do Chipre para que a mesma injete dinheiro na SAD do Rio Ave.)

Para se ter uma ideia, isto significa que o capital da RAH cresceu cerca de 38 mil vezes desde o dia em que foi criada. Em quase 27 meses, sucederam-se pelo menos 17 aumentos de capital e 18 emissões de novas ações, registadas no equivalente cipriota da nossa Conservatória do Registo Comercial. Faça contas: uma operação a cada cinco a oito semanas.

O ritmo das injeções de capital, mês a mês
2024 2025 2026 J F M A M J J A S O N D 1 · · 2 1 · 2 1 1 1 3 2 · 2 · 2 · · 2 1 2 2 1 4 · · · · 1 0 ops 1 2 3 4 ou +
Cada quadrado representa um mês; o número indica quantas operações de capital (aumentos ou emissões) foram registadas em Chipre. Repare na concentração no final de cada ano — provável fecho contabilístico de transferências e injeções de tesouraria para o término da temporada. Caso contrário, a SAD do Rio Ave estaria pelas ruas da amargura. Basta o investidor cansar-se de fazer isto, que tudo cai num ápice.

Esse ritmo intenso — uma injeção a cada mês ou dois — combina bem com a ideia de financiar a operação do clube em «pingo a pingo»: pagar transferências quando há janelas de mercado em janeiro e em julho/agosto, suportar salários ao longo dos meses, cobrir as despesas correntes que um clube de futebol profissional tem todos os dias.

O que não fica preto no branco nos documentos cipriotas é uma coisa importante: a RAH continuou a comprar ações novas à SAD ou está apenas a manter os 80% já comprados? Se a SAD em Portugal fez aumentos de capital próprios e só a RAH meteu lá dinheiro novo, então a participação do Rio Ave Futebol Clube (o clube-mãe) terá baixado dos 20% iniciais para uma percentagem mais pequena — porque é assim que funciona uma diluição (hoje em vez dos 20%, a confirmar-se, teremos uma percentagem entre os 5 a 10%). Quem não acompanha o aumento de capital perde peso relativo. Para saber isto ao certo, é preciso consultar a certidão da Rio Ave SAD em Portugal — esse documento não está no dossier cipriota.
Há um cenário que, até agora, ninguém está a discutir publicamente: o que acontece quando a RAH quiser continuar a injetar dinheiro, mas o Rio Ave FC já estiver no piso mínimo legal dos 5% e não puder ser mais diluído?

A resposta financeira é simples: esse dinheiro já não pode ser convertido em capital. Passa a ser dívida da SAD para com a RAH — suprimentos, empréstimos, passivo registado no balanço. Os documentos de 2024 já mostram este mecanismo em funcionamento: a RAH concedeu €3 milhões em suprimentos à SAD, com juros de 5% ao ano, antes de os converter em capital nesse mesmo exercício.

Quando a conversão deixar de ser possível, o modelo muda: o Rio Ave SAD passa a ter uma obrigação financeira crescente para com os seus próprios acionistas maioritários. Uma dívida que gera juros, que figura no passivo, e sobre a qual os adeptos — como membros do clube que detém os restantes 5% — têm todo o direito de pedir esclarecimentos.

O que continuamos sem saber — e o que a transparência exige

Há três coisas importantes que estes documentos não nos contam:

1. O acordo parasocial. Quando há dois ou mais acionistas numa SAD, o normal é assinarem entre si um contrato privado chamado acordo parasocial. Esse contrato define quem manda nas decisões importantes (vetos sobre venda de jogadores acima de certo valor, nomeação do treinador, alterações ao estádio, distribuição de lucros, eventual venda do clube no futuro). Não há vestígio desse acordo no dossier de Chipre, e tipicamente um acordo destes não é público — é privado. Mas todos os indícios apontam para a sua existência.

2. O peso exato do clube-mãe hoje. Como já foi dito, a participação do Rio Ave Futebol Clube pode, e quase de certeza, que ficou abaixo dos 20% por força das injeções de capital sucessivas.

3. A reserva do auditor. O auditor da RAH escreveu, em letra miudinha mas decisiva, que não conseguiu validar o valor de €15,86 milhões com que a participação no Rio Ave aparece registada. Ele aceitou os números, mas com a ressalva de que não teve forma de verificar se aquele valor reflete a realidade do clube. Isto pode ser apenas uma questão técnica de acesso à documentação portuguesa. Pedir contas ao auditor, ou olhar para as contas portuguesas da SAD, seria meio caminho andado para perceber o que está em causa.

«As stated in note 14 'Investments in subsidiaries' the Company as at 31 December 2024 owned subsidiary amounting to US$ 15,855,798. There were no alternative audit procedures we could have performed in order to satisfy ourselves as to the valuation of the investment in subsidiary.»
Relatório do auditor independente (DMK Accountants Limited) — Annual Report 2024 da RAH, pág. 8, secção «Basis for Qualified Opinion»
Fontes: Registry Extract e Report da RAH Sports Investments Limited (Department of Registrar of Companies, Chipre, emitidos em 18/05/2026); Annual Return HE32 apresentado em 26/07/2025; Relatório e Demonstrações Financeiras 2024 da RAH, auditados pela DMK Accountants Limited e assinados em Nicósia a 02/03/2026; 58 formulários complementares (HE12, HE14, HE57 e HE44) do registo cipriota. Este artigo foi construído com a ajuda do Claude.ai

27.5.26

RAH Sports passou de €1000 de capital para €38,8 milhões

O que passámos a saber do nosso investidor: 

1) A empresa que controla 80% da SAD Rioavista foi constituída com €1.000. Dois anos depois, já tinha injetado cerca de €38 milhões (um multiplicador de quase 39.000 vezes). Mas não aconteceu tudo de uma vez. Os registos cipriotas mostram pelo menos 17 operações de aumento de capital e 18 operações de emissão de ações entre abril de 2024 e maio de 2026 — uma cadência de aproximadamente uma operação por mês. Os marcos da escalada: €1.000 → €5,1 milhões → €16,3 milhões → €25,2 milhões → €33,6 milhões → €38,8 milhões.

2) A RAH Sports Investments Limited, registada em Chipre, foi constituída três semanas antes da formalização do negócio. Ou seja, a empresa nasceu para comprar o Rio Ave, o seu único ativo.

3) O único acionista é Miltiadis Marinakis, filho de Evangelos Marinakis, nascido a 3 de novembro de 1999 — tinha 24 anos quando a empresa foi criada. A morada registada é Akti Themistokleous 4, no Pireu, bairro historicamente associado às grandes famílias de armadores gregos e sede histórica da Capital Maritime & Trading, o império marítimo da família.

4) O único administrador é um advogado cipriota, Loukas Chatzigiagkou, que assina os documentos em nome da holding. Os estatutos são o modelo padrão cipriota — sem cláusulas especiais de proteção a acionistas minoritários e sem acordo parassocial anexo. A escolha do Chipre não é acidental. Com uma taxa de IRC de 12,5% e isenção de mais-valias em participações qualificadas, a ilha é o veículo clássico para estruturar investimentos de famílias gregas ligadas ao mundo marítimo e desportivo.

5) As contas auditadas da SAD relativas a 2024 — o único exercício com dados verificados — discriminam o seguinte:

- €12.749.970 pagos diretamente pela aquisição dos 80% da SAD
- €3.075.144 em suprimentos (empréstimos) concedidos à Rio Ave SAD
- €30.684 em juros sobre esses suprimentos, depois também convertidos em capital

- Total confirmado em 2024: €15,86 milhões, valor que corresponde exatamente ao que as contas da RAH registam como "Investimentos em subsidiárias".
 

6) Há um cenário que, até agora, ninguém está a discutir publicamente: o que acontece quando a RAH quiser continuar a injetar dinheiro, mas o Rio Ave FC já estiver no piso mínimo legal dos 5% e não puder ser mais diluído? A resposta financeira é simples: esse dinheiro já não pode ser convertido em capital. Passa a ser 'dívida da SAD para com a RAH' — suprimentos, empréstimos, passivo registado no balanço. Os documentos de 2024 já mostram este mecanismo em funcionamento: a RAH concedeu €3 milhões em suprimentos à SAD, com juros de 5% ao ano, antes de os converter em capital nesse mesmo exercício.


Nota:  Há um detalhe nas contas de 2024 que merece atenção: o auditor da RAH Sports, a DMK Accountants Limited, emitiu uma "opinião com reserva" (aquilo a que chamam uma "Qualified Opinion") sobre as demonstrações financeiras, porque não conseguiu validar o valor atribuído ao investimento na Rio Ave SAD. Traduzindo para linguagem comum: o contabilista oficial disse, por escrito, que não sabe quanto vale essa participação.

[Este texto baseia-se em documentos oficiais obtidos junto do Registo Comercial do Chipre: Registry Extract, Company Report, Annual Report 2024 (com parecer de auditoria), HE32 Annual Return, Memorando e Estatutos, e Certificado de Constituição da RAH Sports Investments Limited (HE 455805). Os dados financeiros de 2025 e 2026 são inferidos a partir dos registos de capital da holding e não de contas auditadas da SAD portuguesa e foram organizados com a ajuda da IA/Claude]