'Reis do Ave' é, nesta altura, um blogue dos sócios do Rio Ave FC Daniel Silva (nº3883), Gualter Macedo (nº1603) e João Paulo Meneses (nº675). Opiniões (e algumas informações) sobre o nosso Rio Ave FC!
O Rio Ave FC – Futebol SAD apresentou um resultado líquido negativo de 19,3 milhões de euros, num período marcado por forte investimento no plantel, reforço da estrutura profissional e melhoria das infraestruturas do clube.
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As contas foram aprovadas pela Administração em 26 de novembro de 2025. Estas contas refletem o primeiro ciclo da Rio Ave FC – Futebol SAD após a transformação da antiga SDUQ em Sociedade Anónima Desportiva e a consolidação da entrada da RAH Sports como acionista maioritária.
Resumo dos principais indicadores
Resultado líquido: -19,3 milhões €
Passivo total: 29,8 milhões €
Capital próprio: -5,5 milhões €
Ativo total: 24,2 milhões €
Investimento da RAH Sports: 23 milhões €
Custos com pessoal: 16,6 milhões €
Gastos operacionais: 21,8 milhões €
Direitos televisivos: 5 milhões €
Venda de passes de jogadores: 264 mil €
Ativos intangíveis (direitos de jogadores): 15 milhões €
Número de colaboradores: 133
Comparação com períodos anteriores
Resultado líquido 2023/24: -5,8 milhões €
Resultado líquido 2022/23: -7,8 milhões €
Os números refletem um período de forte investimento no plantel e na estrutura operacional da SAD.
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Forte aposta no ativo desportivo
As receitas provenientes da venda de passes de jogadores situaram-se em cerca de 264 mil euros durante o período analisado.
Como consequência, os ativos intangíveis aumentaram de cerca de 8,4 milhões para 15 milhões de euros, contribuindo para o crescimento do ativo total para 24,2 milhões de euros.
Custos aumentam com reforço da estrutura
Os gastos operacionais ultrapassaram os 21,8 milhões de euros, enquanto os custos com pessoal cresceram de 10,3 para 16,6 milhões de euros.
O número de colaboradores aumentou para 133.
Os fornecimentos e serviços externos registaram igualmente um aumento face ao período anterior.
RAH Sports reforça capital
O relatório refere investimentos e reforços de capital da RAH Sports no montante de cerca de 23 milhões de euros, contribuindo para o reforço da estrutura financeira da sociedade e para a melhoria da sua situação patrimonial.
Ainda assim, o capital próprio mantém-se negativo em 5,5 milhões de euros e o passivo total aproxima-se dos 30 milhões de euros.
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Investimento nas infraestruturas
O relatório destaca igualmente a continuação do plano de modernização do clube, incluindo:
novo edifício para a equipa principal;
melhorias na Academia;
criação de dois novos campos de relva natural;
intervenções no estádio;
reforço da experiência dos adeptos.
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Reservas do Revisor Oficial de Contas
O Revisor Oficial de Contas emitiu uma opinião com reservas sobre as contas da SAD, destacando três situações principais:
Possível sobreavaliação do ativo em 22,7 mil euros, subavaliação do passivo em 323,2 mil euros e sobreavaliação do capital próprio em 345,9 mil euros.
Provisões para impostos consideradas insuficientes em cerca de 265 mil euros face a processos judiciais em curso.
Impossibilidade de confirmar a exatidão de saldos bancários no valor de 3,47 milhões de euros, por falta de conciliações bancárias e evidência suficiente disponibilizada ao auditor.
Estas reservas constam da certificação legal das contas emitida pelo ROC José Luís Pinto de Azevedo.
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Nota:
A transformação da SDUQ em Sociedade Anónima Desportiva foi concretizada em 2024, tendo o registo formal da transformação ocorrido em junho desse ano.
O JP Meneses e o Daniel escreveram 2 artigos com informação sobre a RAH Sports, à data nenhum de nós (Reis do Ave) tinha conhecimento da existência deste relatório da SAD (ver fonte),entretanto o Daniel escreveu outro a explicar as diferenças detectadas, o agora publicado refere-se exclusivamente ás contas Rio Ave FC – Futebol SAD época 2024/2025 .
Fontes:
Artigo elaborado com base no Relatório e Contas da Rio Ave FC – Futebol SAD aprovado pela Administração a 26 de novembro de 2025. Foram ainda utilizadas ferramentas de inteligência artificial para apoio à redação e criação de elementos gráficos.
O relatório oficial 24/25 da SAD confirma: entraram €24 milhões — e o Rio Ave FC mantém os 20%
O Relatório e Contas oficial da Rio Ave Futebol Clube — Futebol, SAD, referente ao exercício 1 de julho de 2024 a 30 de junho de 2025, foi publicado no site do clube. Permite-nos atualizar dois números essenciais: o dinheiro injetado pela RAH é ainda maior do que o que se via pelas contas cipriotas — perto de €24 milhões — e o capital social da SAD não se mexeu desde 31 de maio de 2024. O clube-mãe continua, oficialmente, com 20%.
Nos artigos anteriores trabalhámos com a única fonte disponível na altura: as contas auditadas da RAH Sports em Chipre, referentes ao ano civil de 2024. Essa fonte mostrava-nos €15,86 milhões investidos na Rio Ave SAD até 31 de dezembro de 2024 — e levantava uma pergunta legítima sobre o que tinha acontecido entre janeiro e maio de 2025, período já fora da janela cipriota. Agora, com o relatório oficial da SAD publicado em rioavefc.pt, podemos fechar esta conta com rigor.
≈ € 24 Mtotal injetado pela RAH na SAD desde a sua constituição
80% / 20%repartição do capital social a 30/06/2025
€ 1,25 Mcapital social, inalterado desde 31/05/2024
€ 23,06 Msó em prestações suplementares (FY 2024/25)
Primeiro, uma ressalva importante: os calendários são diferentes
Para perceber por que razão o novo número é tão diferente do anterior, é preciso esclarecer uma diferença técnica que muita gente não tem em conta:
Dois exercícios contabilísticos, dois calendários distintos
RAH Sports (Chipre) usa o ano civil: o exercício vai de 1 de janeiro a 31 de dezembro. As contas a que tivemos acesso cobrem 2024.
Rio Ave SAD (Portugal) usa o ano desportivo: o exercício vai de 1 de julho a 30 de junho. As contas agora publicadas cobrem o período 01/07/2024–30/06/2025.
Resultado: os dois documentos só se sobrepõem em seis meses — de julho a dezembro de 2024. Tudo o que entrou na SAD entre janeiro e junho de 2025 está no relatório português, mas ainda não está nas contas cipriotas (essas só serão publicadas no início de 2027, referentes ao ano civil de 2025).
Esta é a chave para perceber por que razão o relatório da SAD mostra mais dinheiro do que aquele que tínhamos identificado: cobre seis meses adicionais que ainda não estavam refletidos do lado cipriota.
Os €24 milhões, decompostos
O Relatório oficial permite somar, pela primeira vez, todas as entradas de capital próprio na SAD desde o momento em que ela existe. Resultam, ao todo, cerca de €24,06 milhões, divididos em duas peças bem identificadas:
A entrada da RAH na Rio Ave SAD · até 30/06/2025
Fontes: Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Demonstração de Fluxos de Caixa (pág. 12), Demonstração das Alterações no Capital Próprio (pág. 13) e Nota 31 «Partes Relacionadas» (pág. 43).
€1.000.000 — subscrição de capital social. Foi pago pela RAH na própria escritura de transformação da SDUQ em SAD, a 31 de maio de 2024. Em troca, a RAH ficou com 100.000 ações novas de €10 cada, e o capital social da SAD subiu de €250.000 para €1.250.000. Esta entrada de €1M está no relatório da SAD como parte do exercício anterior (FY 2023/24).
€23.055.828 — prestações acessórias e suplementares. Foram realizadas pela RAH ao longo do exercício 2024/25 (1 de julho de 2024 a 30 de junho de 2025). Aparecem no balanço na rubrica «Outros instrumentos de capital próprio». A Nota 12.2 do Anexo às contas é explícita sobre quem as fez:
«Esta rubrica integra os valores realizados pelo acionista Rah Sports Investments Limited durante o período de relato, a título de prestações acessórias e suplementares, para ocorrer a necessidades de tesouraria da SAD.»
Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Anexo, Nota 12.2 «Outros instrumentos de capital próprio», pág. 32
Não há margem para dúvidas: os €23 milhões vieram, na totalidade, da RAH. E o relatório vai ainda mais longe — na Nota 31 (Partes Relacionadas), os saldos com a RAH a 30/06/2025 são reportados em €23.055.828 (capital próprio) e a zero todos os restantes campos. A RAH é, sem qualquer ambiguidade, a única acionista que pôs este dinheiro.
E os 20% do Rio Ave FC? Mantêm-se, sem qualquer alteração
Esta é, para os adeptos, a notícia mais relevante. Apesar dos €23 milhões que entraram durante o exercício, a fotografia do capital social do clube a 30 de junho de 2025 é exatamente a mesma de 31 de maio de 2024 — o dia da transformação em SAD:
O capital social da Rio Ave SAD a 30/06/2025
Fonte: Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Anexo, Nota 31 «Partes Relacionadas», quadro «Evolução do capital social», pág. 43.
O quadro oficial da Nota 31 é direto. Em duas linhas, mostra tudo o que é preciso saber:
«Evolução do capital social da sociedade desportiva — 31/05/2024: RIO AVE FUTEBOL CLUBE 250.000,00 · RAH Sports Investments Limited 1.000.000,00 · Total 1.250.000,00 · 26/05/2013: RIO AVE FUTEBOL CLUBE 250.000,00 · Total 250.000,00»
Relatório e Contas 2024/25 da Rio Ave SAD — Anexo, Nota 31 «Partes Relacionadas», pág. 43
Em linguagem simples: o capital social vale €1,25 milhões; a RAH detém €1 milhão desse capital (80%) e o Rio Ave Futebol Clube detém os restantes €250 mil (20%). Esta repartição não mudou desde a constituição da SAD, em maio de 2024, e mantém-se igual no final do exercício 2024/25, a 30 de junho de 2025.
Como é que entraram €23 milhões sem diluir ninguém?
Esta era a pergunta a que precisávamos responder. A resposta está num mecanismo legal específico que o relatório oficial documenta com clareza:
Prestações acessórias e suplementares — em linguagem simples
Quando um acionista quer meter dinheiro adicional numa sociedade que já controla, há duas formas principais de o fazer:
1. Aumento de capital social. Emitem-se ações novas. Quem subscreve essas ações fica com mais peso, e quem não acompanha o aumento é diluído. Isto altera as percentagens de cada acionista.
2. Prestações suplementares (ou acessórias). O dono mete dinheiro na sociedade sem receber ações novas em troca. O capital próprio da empresa reforça-se, mas nenhuma percentagem se altera. Quem tinha X% antes continua a ter os mesmos X% depois. O dinheiro pode até ser devolvido mais tarde com menos formalidade que num aumento de capital, mas, enquanto cá estiver, está como capital próprio — não como dívida.
Foi a segunda via que a RAH escolheu para canalizar os €23 milhões em 2024/25. Por isso a sua participação continua nos 80% e a do Rio Ave FC continua nos 20%.
Ao optar por este mecanismo, a RAH atingiu três objetivos em simultâneo: reforçou o capital próprio da SAD (saiu de -€9,28 M para -€5,56 M no balanço de 30/06/2025, ainda negativo mas a melhorar), evitou criar uma dívida da SAD para com a holding, e manteve intacta a posição do clube-mãe. Nada disto se conseguiria com um simples aumento de capital — que teria reduzido o peso relativo do Rio Ave FC para muito perto, ou abaixo, do limite legal mínimo de 5% que a lei impõe à participação dos clubes-mãe nas SAD.
O que isto não muda — e o que continua para verificar
Importa não criar conclusões abusivas a partir desta confirmação. O facto de o Rio Ave FC continuar com 20% a 30/06/2025 não significa que vá manter essa percentagem para sempre. Significa apenas que, até essa data, não houve qualquer diluição. Eis o que esta fotografia oficial efetivamente confirma:
O modelo de financiamento usado até agora preserva o clube-mãe. A escolha técnica de canalizar o dinheiro como prestações suplementares — em vez de aumentos de capital — é compatível com uma estratégia que conscientemente protege a posição do Rio Ave FC. É uma boa notícia para os sócios.
A escala da operação é maior do que se via. Os €15,86 milhões que tínhamos documentado pelas contas cipriotas eram apenas a parte que coube ao exercício civil de 2024. O total real, contando até 30 de junho de 2025, é de cerca de €24 milhões. E, segundo os registos cipriotas, depois disso a RAH continuou a injetar capital — fechou maio de 2026 com €38,8 milhões. Quanto desse dinheiro chegou à SAD no exercício 2025/26 só se saberá quando as próximas contas portuguesas forem publicadas, presumivelmente no início de 2027.
O modelo só funciona enquanto Marinakis quiser mantê-lo. O Conselho de Administração da SAD assume, no seu próprio relatório, que existe uma «incerteza material relacionada com a continuidade» — porque o passivo corrente excede o ativo corrente em €14,64 milhões e o capital próprio é negativo. A continuidade da Rio Ave SAD, em qualquer cenário realista, depende da decisão do acionista maioritário de continuar a financiar a operação.
Em duas frases
Primeira: o Relatório e Contas oficial 2024/25 da Rio Ave SAD confirma que entraram aproximadamente €24 milhões da RAH desde a transformação em SAD — mais do que tínhamos identificado pelas contas cipriotas, porque o exercício português cobre seis meses adicionais (de janeiro a junho de 2025).
Segunda: o mesmo relatório confirma que, apesar desse volume, o capital social mantém-se em €1,25 milhões e a sua repartição mantém-se em 80% (RAH) / 20% (Rio Ave FC), exatamente como no dia da transformação. O dinheiro entrou como prestações acessórias e suplementares — um mecanismo legal que reforça o capital próprio da SAD sem diluir nenhum acionista.
O dinheiro grego no Rio Ave: o que sabemos da RAH Sports e do seu controlo do clube
Quem são os novos donos da Rio Ave SAD, quanto pagaram pelo clube, como continuam a meter dinheiro lá dentro e o que ainda ninguém nos contou. Um guia simples, com os números, para perceber a operação que mudou a vida da SAD.
Quando, no início de 2024, o Rio Ave Futebol Clube se transformou de SDUC em SAD para abrir a porta a um investidor de fora, muita gente em Vila do Conde percebeu que algo grande estava a acontecer. O que talvez não tenha ficado tão claro foi quem comprou o clube, por quanto, e como é que esse dinheiro tem entrado nas contas da SAD desde então. Este artigo tenta responder a estas perguntas com base nos documentos oficiais que estão disponíveis no registo comercial cipriota — onde mora, juridicamente, a empresa que hoje controla 80% da SAD do Rio Ave.
A RAH Sports Investments Limited é uma empresa registada em Chipre, no dia 25 de janeiro de 2024. O nome não é por acaso: «RAH» são, com grande probabilidade, as iniciais de Rio Ave Holding («holding» é apenas o nome técnico para uma empresa cuja única função é deter participações noutras empresas — não fabrica nada, não vende nada, serve só para ser dona).
Tem um único dono: Miltiadis Marinakis, cidadão grego, nascido a 3 de novembro de 1999. Por outras palavras: à data em que ficou com a Rio Ave SAD entre mãos, este senhor tinha 24 anos. Mas o apelido não é desconhecido. Miltiadis é filho de Evangelos Marinakis, o magnata grego do shipping que também é dono do Olympiacos (Grécia) e do Nottingham Forest (Inglaterra, hoje na Premier League). A casa dos Marinakis em Atenas — Akti Themistokleous, no Pireu — é o mesmo bairro onde está o império dos navios da família, e é a morada que aparece como residência oficial de Miltiadis nos papéis da RAH.
«The Company is controlled by a non Cyprus tax resident individual, who owns 100% of the Company's shares.»
Annual Report 2024 da RAH Sports — Nota 22 «Related party transactions», pág. 29
Ou seja: o Rio Ave entrou para um portefólio de futebol que já tinha um clube na Grécia e um em Inglaterra. Faz parte daquilo a que no estrangeiro se chama «multi-club ownership» — quando o mesmo dono tem vários clubes, em vários países, a trabalhar como peças encaixadas.
A árvore do controlo
Estrutura simplificada da posse do Rio Ave segundo as Demonstrações Financeiras 2024 da RAH. Os 20% restantes do capital da SAD estão fora do perímetro da RAH e não vêm identificados nos documentos cipriotas.
Como é que a empresa adquiriu 80% do Rio Ave SAD
A operação parece complicada, mas decompõe-se em poucos passos:
1. O Rio Ave Futebol Clube — a coletividade, a associação dos sócios — tinha o futebol profissional dentro de uma SDUC, ou seja, uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas. Isso é uma figura jurídica em que o clube é o único dono do futebol. Quando se quer abrir a porta a um investidor externo, tem de se transformar essa SDUC numa SAD (Sociedade Anónima Desportiva), porque só uma SAD permite ter várias pessoas com ações de uma equipa.
2. No dia 25 de janeiro de 2024 — exatamente na altura em que se estava a desbloquear o lado português — a RAH Sports foi constituída em Nicósia, capital de Chipre. Foi montada com 1 000 ações de €1 cada, no valor total de €1 000. Estamos a falar do capital social mínimo apenas para abrir as portas.
3. Assim que ficou pronta, a RAH meteu mãos à obra. Foi à recém-criada Rio Ave SAD e ficou com 80% do capital. Ficando o próprio Rio Ave Futebol Clube (o clube-mãe), com a restante parte.
«Name: RIO AVE FUTEBOL CLUBE — Country of incorporation: Portugal — Principal activities: Participation in professional football events — Holding: 80% — 15 855 798 €»
Annual Report 2024 da RAH Sports — Nota 14 «Investments in subsidiaries», pág. 26
Fonte: Annual Report 2024 da RAH Sports, Notas 14 e 15, pág. 26, e Cash Flow Statement, pág. 14.
Dinheiro pago em 2024 para comprar a participação na Rio Ave SAD: €12 749 970 (perto de €12,75 milhões).
Empréstimos que a RAH ainda em 2024 fez à SAD, com juros: €3 075 144 de principal + €30 684 de juros = €3 105 828 (cerca de €3,11 milhões).
Esses €3,11 milhões foram, no mesmo ano, transformados em mais ações da SAD — em vez de a SAD devolver o dinheiro como empréstimo, a RAH «trocou» o que tinha a receber por mais participação. Esta operação tem um nome: chama-se capitalização de suprimentos. Suprimento é apenas a palavra técnica para um empréstimo que um dono faz à sua empresa; capitalizar é convertê-lo em capital próprio, ou seja, transformá-lo em ações.
Total injetado na Rio Ave SAD em 2024 segundo o relatório da RAH:€15 855 798 — cerca de €15,86 milhões
É este o valor que aparece registado nas contas da RAH como sendo o que vale, hoje, a sua participação no clube. É também o ativo mais importante que a empresa cipriota tem nos seus livros: representa quase 89% de tudo o que ela é.
A entrada do dinheiro não parou — pelo contrário, multiplicou-se
Aqui está um pormenor que muita gente não tem percebido: a operação não acabou em 2024. Pelo contrário. Entre o final desse primeiro ano e maio de 2026, a RAH recebeu mais €22,53 milhões de capital do seu dono, Miltiadis Marinakis. Ou seja, a empresa cipriota saltou de €16,265 milhões de capital em dezembro de 2024 para €38,795 milhões em maio de 2026.
A escalada do capital da RAH · abr/2024 → mai/2026
Cada ponto é uma operação de aumento de capital (HE14) ou emissão de novas ações (HE12) registada em Chipre. A linha não recua nunca: o capital só cresce. (Reforçar: o aumento do capital é na sociedade do Chipre para que a mesma injete dinheiro na SAD do Rio Ave.)
Para se ter uma ideia, isto significa que o capital da RAH cresceu cerca de 38 mil vezes desde o dia em que foi criada. Em quase 27 meses, sucederam-se pelo menos 17 aumentos de capital e 18 emissões de novas ações, registadas no equivalente cipriota da nossa Conservatória do Registo Comercial. Faça contas: uma operação a cada cinco a oito semanas.
O ritmo das injeções de capital, mês a mês
Cada quadrado representa um mês; o número indica quantas operações de capital (aumentos ou emissões) foram registadas em Chipre. Repare na concentração no final de cada ano — provável fecho contabilístico de transferências e injeções de tesouraria para o término da temporada. Caso contrário, a SAD do Rio Ave estaria pelas ruas da amargura. Basta o investidor cansar-se de fazer isto, que tudo cai num ápice.
Esse ritmo intenso — uma injeção a cada mês ou dois — combina bem com a ideia de financiar a operação do clube em «pingo a pingo»: pagar transferências quando há janelas de mercado em janeiro e em julho/agosto, suportar salários ao longo dos meses, cobrir as despesas correntes que um clube de futebol profissional tem todos os dias.
Há um cenário que, até agora, ninguém está a discutir publicamente: o que acontece quando a RAH quiser continuar a injetar dinheiro, mas o Rio Ave FC já estiver no piso mínimo legal dos 5% e não puder ser mais diluído?
A resposta financeira é simples: esse dinheiro já não pode ser convertido em capital. Passa a ser dívida da SAD para com a RAH — suprimentos, empréstimos, passivo registado no balanço. Os documentos de 2024 já mostram este mecanismo em funcionamento: a RAH concedeu €3 milhões em suprimentos à SAD, com juros de 5% ao ano, antes de os converter em capital nesse mesmo exercício.
Quando a conversão deixar de ser possível, o modelo muda: o Rio Ave SAD passa a ter uma obrigação financeira crescente para com os seus próprios acionistas maioritários. Uma dívida que gera juros, que figura no passivo, e sobre a qual os adeptos têm todo o direito de pedir esclarecimentos.
O que continuamos sem saber — e o que a transparência exige
Há três coisas importantes que estes documentos não nos contam:
1. O acordo parasocial. Quando há dois ou mais acionistas numa SAD, o normal é assinarem entre si um contrato privado chamado acordo parasocial. Esse contrato define quem manda nas decisões importantes (vetos sobre venda de jogadores acima de certo valor, nomeação do treinador, alterações ao estádio, distribuição de lucros, eventual venda do clube no futuro). Não há vestígio desse acordo no dossier de Chipre, e tipicamente um acordo destes não é público — é privado. Mas todos os indícios apontam para a sua existência.
2. O peso exato do clube-mãe hoje. Como já foi dito, a participação do Rio Ave Futebol Clube pode, futuramente, ser menos que 20% por força das injeções de capital sucessivas.
3. A reserva do auditor. O auditor da RAH escreveu, em letra miudinha mas decisiva, que não conseguiu validar o valor de €15,86 milhões com que a participação no Rio Ave aparece registada. Ele aceitou os números, mas com a ressalva de que não teve forma de verificar se aquele valor reflete a realidade do clube. Isto pode ser apenas uma questão técnica de acesso à documentação portuguesa. Pedir contas ao auditor, ou olhar para as contas portuguesas da SAD, seria meio caminho andado para perceber o que está em causa.
«As stated in note 14 'Investments in subsidiaries' the Company as at 31 December 2024 owned subsidiary amounting to US$ 15,855,798. There were no alternative audit procedures we could have performed in order to satisfy ourselves as to the valuation of the investment in subsidiary.»
Relatório do auditor independente (DMK Accountants Limited) — Annual Report 2024 da RAH, pág. 8, secção «Basis for Qualified Opinion»
1) A empresa que controla 80% da SAD Rioavista foi constituída com €1.000. Dois anos depois, já tinha injetado cerca de €38 milhões (um multiplicador de quase 39.000 vezes). Mas não aconteceu tudo de uma vez. Os registos cipriotas mostram pelo menos 17 operações
de aumento de capital e 18 operações de emissão de ações entre abril
de 2024 e maio de 2026 — uma cadência de aproximadamente uma operação
por mês. Os marcos da escalada: €1.000 → €5,1 milhões → €16,3 milhões →
€25,2 milhões → €33,6 milhões → €38,8 milhões.
2) A RAH Sports Investments Limited, registada em Chipre, foi constituída cerca de 4 meses antes da formalização do negócio. Ou seja, a empresa nasceu para comprar o Rio Ave, o seu único ativo.
3) O único acionista é Miltiadis Marinakis, filho de Evangelos Marinakis, nascido a 3 de novembro de 1999 — tinha 24 anos quando a empresa foi criada. A morada registada é Akti Themistokleous 4, no Pireu, bairro historicamente associado às grandes famílias de armadores gregos e sede histórica da Capital Maritime & Trading, o império marítimo da família.
4) O único administrador é um advogado cipriota, Loukas
Chatzigiagkou, que assina os documentos em nome da holding. Os estatutos
são o modelo padrão cipriota — sem cláusulas especiais de proteção a
acionistas minoritários e sem acordo parassocial anexo. A
escolha do Chipre não é acidental. Com uma taxa de IRC de 12,5% e
isenção de mais-valias em participações qualificadas, a ilha é o veículo
clássico para estruturar investimentos de famílias gregas ligadas ao
mundo marítimo e desportivo.
5) As contas auditadas da RAH relativas a 2024 — o único exercício com dados verificados — discriminam o seguinte:
- €12.749.970 pagos diretamente pela aquisição dos 80% da SAD - €3.075.144 em suprimentos (empréstimos) concedidos à Rio Ave SAD - €30.684 em juros sobre esses suprimentos, depois também convertidos em capital
- Total confirmado em 2024: €15,86 milhões, valor que corresponde exatamente ao que as contas da RAH registam como "Investimentos em subsidiárias".
6) Há um cenário que, até agora, ninguém está a discutir publicamente: o que acontece quando a RAH quiser continuar a injetar dinheiro, mas o Rio Ave FC já estiver no piso mínimo legal dos 5% e não puder ser mais diluído? A resposta financeira é simples: esse dinheiro já não pode ser convertido em capital. Passa a ser 'dívida da SAD para com a RAH' — suprimentos, empréstimos, passivo registado no balanço. Os documentos de 2024 já mostram este mecanismo em funcionamento: a RAH concedeu €3 milhões em suprimentos à SAD, com juros de 5% ao ano, antes de os converter em capital nesse mesmo exercício.
Nota: Há um detalhe nas contas de 2024 que merece atenção: o auditor da RAH Sports, a DMK Accountants Limited, emitiu uma "opinião com reserva" (aquilo a que chamam uma "Qualified Opinion") sobre as demonstrações financeiras, porque não conseguiu validar o valor atribuído ao investimento na Rio Ave SAD. Traduzindo para linguagem comum: o contabilista oficial disse, por escrito, que não sabe quanto vale essa participação.
[Este texto baseia-se em documentos oficiais obtidos junto do Registo Comercial do Chipre: Registry Extract, Company Report, Annual Report 2024 (com parecer de auditoria), HE32 Annual Return, Memorando e Estatutos, e Certificado de Constituição da RAH Sports Investments Limited (HE 455805). Os dados financeiros de 2025 e 2026 são inferidos a partir dos registos de capital da holding e não de contas auditadas da SAD portuguesa e foram organizados com a ajuda da IA/Claude]