10.2.26

Entre linhas: o recado de Sotiris à SAD?





As palavras de Sotiris no final do jogo frente ao Braga não foram apenas um comentário de circunstância. Foram, acima de tudo, um momento raro de honestidade pública num clube onde, nos últimos tempos, o discurso tende a ser cuidadosamente higienizado.

“No início da época estávamos preparados, agora temos novos jogadores, saíram sete jogadores e não é fácil criar dinâmicas com jogadores novos. Saíram jogadores importantes e agora temos de encontrar uma nova ideia de jogar…”


Não é todos os dias que o treinador do Rio Ave assume, de forma tão clara, que a equipa que idealizou deixou de existir a meio da época. E muito menos que o faça sem rodeios, sem chavões e sem o habitual “temos de nos adaptar” dito em modo automático.

Esta foi, claramente, uma bicada à SAD. Uma bicada contida, educada, mas ainda assim uma bicada.

Sotiris não falou em azar e não falou em falta de atitude. Falou em algo muito mais estrutural: a perda de jogadores, a ruptura de processos e a obrigação de inventar uma nova ideia de jogo em pleno campeonato. Ou seja, aquilo que qualquer treinador sabe ser o cenário ideal para correr mal.

Pela primeira vez, o próprio treinador veio dizer aquilo que é evidente para qualquer adepto atento: não há estabilidade possível quando a equipa muda radicalmente a meio da época.

Sete saídas. Jogadores importantes. Dois deles responsáveis pela esmagadora maioria dos golos da equipa.

Quando Sotiris fala em “encontrar uma nova ideia de jogar”, está a admitir algo preocupante: a ideia anterior morreu (sendo que ela não era boa). 

Mais do que isso, é um sinal de desconforto. Sotiris percebe que não tem controlo nos jogadores com que pode contar.

Ao falar assim, Sotiris protege-se. E, ao mesmo tempo, expõe a realidade: não se pode exigir muito de Sotiris quando não existe compromisso com o projeto desportivo.

Resta saber se estas palavras foram apenas um desabafo momentâneo ou se representam o início de algo mais raro no Rio Ave atual: alguém, por dentro, a começar a dizer em voz alta aquilo que durante demasiado tempo foi apenas sussurrado nas bancadas.

Porque quando até o treinador deixa de conseguir fingir que está tudo normal, é porque claramente não está.