11.2.26

A Rio Ave SAD procura treinador, mas o contexto não ajuda




Há silêncios que dizem mais do que comunicados oficiais.

E o silêncio da Rio Ave SAD em torno da saída de Sotiris é um deles.

Apesar de praticamente toda a comunicação social dar como certa a saída do treinador grego, a verdade é que não houve qualquer confirmação oficial. Sotiris continua, formalmente, a ser treinador do Rio Ave. E quando a decisão parece óbvia mas não é executada, a pergunta impõe-se: porquê?

E se a Rio Ave SAD estiver a ter dificuldades em encontrar um treinador que aceite assumir o cargo?

Não por falta de nomes no mercado, mas por falta de interesse real. Porque hoje, no futebol, os treinadores não escolhem apenas clubes. Escolhem contextos. Escolhem projetos. Escolhem autonomia. Escolhem se vão ser líderes… ou apenas gestores de sobrevivência.

E o contexto do Rio Ave, nos últimos anos, não tem sido particularmente sedutor.

Treinar o Rio Ave tem significado, para muitos, trabalhar com um plantel profundamente condicionado, construído não por uma lógica desportiva própria, mas por uma política de reaproveitamento. Jogadores que chegam tarde, opções que não são verdadeiras escolhas, decisões tomadas acima do banco. Um treinador que entra já a saber que não manda, apenas executa. E executa com o que lhe dão — muitas vezes, os restos dos outros dois clubes da estrutura.

É legítimo perguntar:
Que treinador com currículo, com provas dadas, aceita entrar num clube onde a margem de decisão é mínima e a responsabilidade máxima?

A resposta ajuda a explicar o padrão. Quando não se oferece um projeto forte, não se atraem treinadores fortes. Atraem-se treinadores disponíveis. Treinadores em fim de linha. Treinadores que aceitam porque precisam, não porque acreditam.

E isso reflete-se inevitavelmente no relvado.

O caso de Sotiris não é isolado. É sintoma. Sintoma de uma política que desvaloriza o papel do treinador enquanto peça central do projeto desportivo. E enquanto assim for, a substituição de nomes será apenas cosmética. Sai um treinador fragilizado, entra outro nas mesmas condições — e o ciclo repete-se.

Se o Rio Ave quiser, de facto, um treinador com provas dadas, terá de fazer algo mais difícil do que despedir Sotiris: terá de mudar. Mudar a forma como constrói plantéis. Mudar a forma como comunica objetivos. Mudar a forma como respeita a autonomia técnica.

Caso contrário, a profecia cumpre-se sozinha.
Continuaremos a receber os “restos” — de jogadores… e de treinadores.