Tempos em que a realidade é flexível, a verdade é negociável e o cargo que se ocupa depende mais do sítio onde se escreve do que dos factos.
Imaginemos o seguinte cenário:
Sou um trabalhador por conta de outrem. Cumpro horários, recebo ordens, tenho chefias acima de mim e, no final do mês, recebo o meu salário. Tudo normal.
Agora imaginem que, um belo dia, entro no Linkedin e decido atualizar o perfil:
CEO da empresa onde trabalho.
Não mudei de funções.
Não assinei qualquer contrato novo.
Não fui nomeado.
Não passei a decidir nada.
Mas escrevi.
E publiquei.
E pronto: está feito.
A partir daí, começo a apresentar-me como CEO.
Vou a eventos.
Dou opiniões estratégicas.
Falo em nome da empresa.
E, quando alguém pergunta “mas isso é oficial?”, respondo com ar sério:
“Depende.”
No papel, não sou.
Na prática, também não.
Mas na narrativa… sou.
Se algo correr bem, lá estarei para sorrir na fotografia.
Se algo correr mal, direi que não tenho poderes executivos, que sou apenas um trabalhador como outro qualquer e que a responsabilidade não é minha.
Absurdo?
Claro que é.
No mundo real, isto teria um nome: falsa representação.
No futebol português, parece ser a gestão moderna.
Porque no Rio Ave estamos exatamente neste ponto:
não importa o que se é de facto, importa o que se diz que se é — e onde se diz.
Pode não constar nos registos.
Pode não estar formalizado.
Pode não existir legalmente.
Mas se aparecer nos canais certos, com a narrativa certa, passa a ser verdade suficiente.
E o mais curioso é que ninguém parece incomodado com isso.
O problema é que os sócios não vivem do "Linkedin".
Vivem de realidade.
E na realidade, quando as decisões são tomadas, quando pessoas são despedidas, quando processos judiciais se acumulam e quando o clube entra num silêncio ensurdecedor, alguém tem de ser responsável — não apenas figurante.

