O dinheiro grego no Rio Ave: o que sabemos da RAH Sports e do seu controlo do clube
Quem são os novos donos da Rio Ave SAD, quanto pagaram pelo clube, como continuam a meter dinheiro lá dentro e o que ainda ninguém nos contou. Um guia simples, com os números, para perceber a operação que mudou a vida da SAD.
Quando, no início de 2024, o Rio Ave Futebol Clube se transformou de SDUC em SAD para abrir a porta a um investidor de fora, muita gente em Vila do Conde percebeu que algo grande estava a acontecer. O que talvez não tenha ficado tão claro foi quem comprou o clube, por quanto, e como é que esse dinheiro tem entrado nas contas da SAD desde então. Este artigo tenta responder a estas perguntas com base nos documentos oficiais que estão disponíveis no registo comercial cipriota — onde mora, juridicamente, a empresa que hoje controla 80% (ou até mais) da SAD do Rio Ave.
Quem é, afinal, a RAH Sports?
A RAH Sports Investments Limited é uma empresa registada em Chipre, no dia 25 de janeiro de 2024. O nome não é por acaso: «RAH» são, com grande probabilidade, as iniciais de Rio Ave Holding («holding» é apenas o nome técnico para uma empresa cuja única função é deter participações noutras empresas — não fabrica nada, não vende nada, serve só para ser dona).
Tem um único dono: Miltiadis Marinakis, cidadão grego, nascido a 3 de novembro de 1999. Por outras palavras: à data em que ficou com a Rio Ave SAD entre mãos, este senhor tinha 24 anos. Mas o apelido não é desconhecido. Miltiadis é filho de Evangelos Marinakis, o magnata grego do shipping que também é dono do Olympiacos (Grécia) e do Nottingham Forest (Inglaterra, hoje na Premier League). A casa dos Marinakis em Atenas — Akti Themistokleous, no Pireu — é o mesmo bairro onde está o império dos navios da família, e é a morada que aparece como residência oficial de Miltiadis nos papéis da RAH.
Ou seja: o Rio Ave entrou para um portefólio de futebol que já tinha um clube na Grécia e um em Inglaterra. Faz parte daquilo a que no estrangeiro se chama «multi-club ownership» — quando o mesmo dono tem vários clubes, em vários países, a trabalhar como peças encaixadas.
Como é que a empresa adquiriu 80% do Rio Ave SAD
A operação parece complicada, mas decompõe-se em poucos passos:
1. O Rio Ave Futebol Clube — a coletividade, a associação dos sócios — tinha o futebol profissional dentro de uma SDUC, ou seja, uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas. Isso é uma figura jurídica em que o clube é o único dono do futebol. Quando se quer abrir a porta a um investidor externo, tem de se transformar essa SDUC numa SAD (Sociedade Anónima Desportiva), porque só uma SAD permite ter várias pessoas com ações de uma equipa.
2. No dia 25 de janeiro de 2024 — exatamente na altura em que se estava a desbloquear o lado português — a RAH Sports foi constituída em Nicósia, capital de Chipre. Foi montada com 1 000 ações de €1 cada, no valor total de €1 000. Estamos a falar do capital social mínimo apenas para abrir as portas.
3. Assim que ficou pronta, a RAH meteu mãos à obra. Foi à recém-criada Rio Ave SAD e ficou com 80% do capital. Ficando o próprio Rio Ave Futebol Clube (o clube-mãe), com a restante parte.
Quanto custou a entrada dos 80%?
É aqui que ficamos a olhar para os números pelos olhos dos auditores. Lembre-se que Alexandrina Cruz garantia que eram 20.5 Milhões até Junho de 2024. As contas oficiais da RAH (assinadas pelo auditor cipriota DMK Accountants em março de 2026) deixam o cálculo bem claro:
Dinheiro pago em 2024 para comprar a participação na Rio Ave SAD: €12 749 970 (perto de €12,75 milhões).
Empréstimos que a RAH ainda em 2024 fez à SAD, com juros: €3 075 144 de principal + €30 684 de juros = €3 105 828 (cerca de €3,11 milhões).
Esses €3,11 milhões foram, no mesmo ano, transformados em mais ações da SAD — em vez de a SAD devolver o dinheiro como empréstimo, a RAH «trocou» o que tinha a receber por mais participação. Esta operação tem um nome: chama-se capitalização de suprimentos. Suprimento é apenas a palavra técnica para um empréstimo que um dono faz à sua empresa; capitalizar é convertê-lo em capital próprio, ou seja, transformá-lo em ações.
Total injetado na Rio Ave SAD em 2024: €15 855 798 — cerca de €15,86 milhões. Mas estes 3,11 milhões terão exposto (alegadamente) o Rio Ave FC a uma menor fatia na percentagem da SAD (basta o grego querer e nem um 1€ entra para o RAFC para deter mais percentagem)
É este o valor que aparece registado nas contas da RAH como sendo o que vale, hoje, a sua participação no clube. É também o ativo mais importante que a empresa cipriota tem nos seus livros: representa quase 89% de tudo o que ela é.
A entrada do dinheiro não parou — pelo contrário, multiplicou-se
Aqui está um pormenor que muita gente não tem percebido: a operação não acabou em 2024. Pelo contrário. Entre o final desse primeiro ano e maio de 2026, a RAH recebeu mais €22,53 milhões de capital do seu dono, Miltiadis Marinakis. Ou seja, a empresa cipriota saltou de €16,265 milhões de capital em dezembro de 2024 para €38,795 milhões em maio de 2026.
Para se ter uma ideia, isto significa que o capital da RAH cresceu cerca de 38 mil vezes desde o dia em que foi criada. Em quase 27 meses, sucederam-se pelo menos 17 aumentos de capital e 18 emissões de novas ações, registadas no equivalente cipriota da nossa Conservatória do Registo Comercial. Faça contas: uma operação a cada cinco a oito semanas.
Esse ritmo intenso — uma injeção a cada mês ou dois — combina bem com a ideia de financiar a operação do clube em «pingo a pingo»: pagar transferências quando há janelas de mercado em janeiro e em julho/agosto, suportar salários ao longo dos meses, cobrir as despesas correntes que um clube de futebol profissional tem todos os dias.
O que não fica preto no branco nos documentos cipriotas é uma coisa importante: a RAH continuou a comprar ações novas à SAD ou está apenas a manter os 80% já comprados? Se a SAD em Portugal fez aumentos de capital próprios e só a RAH meteu lá dinheiro novo, então a participação do Rio Ave Futebol Clube (o clube-mãe) terá baixado dos 20% iniciais para uma percentagem mais pequena — porque é assim que funciona uma diluição (hoje em vez dos 20%, a confirmar-se, teremos uma percentagem entre os 5 a 10%). Quem não acompanha o aumento de capital perde peso relativo. Para saber isto ao certo, é preciso consultar a certidão da Rio Ave SAD em Portugal — esse documento não está no dossier cipriota.
Há um cenário que, até agora, ninguém está a discutir publicamente: o que acontece quando a RAH quiser continuar a injetar dinheiro, mas o Rio Ave FC já estiver no piso mínimo legal dos 5% e não puder ser mais diluído?
A resposta financeira é simples: esse dinheiro já não pode ser convertido em capital. Passa a ser dívida da SAD para com a RAH — suprimentos, empréstimos, passivo registado no balanço. Os documentos de 2024 já mostram este mecanismo em funcionamento: a RAH concedeu €3 milhões em suprimentos à SAD, com juros de 5% ao ano, antes de os converter em capital nesse mesmo exercício.
Quando a conversão deixar de ser possível, o modelo muda: o Rio Ave SAD passa a ter uma obrigação financeira crescente para com os seus próprios acionistas maioritários. Uma dívida que gera juros, que figura no passivo, e sobre a qual os adeptos — como membros do clube que detém os restantes 5% — têm todo o direito de pedir esclarecimentos.
O que continuamos sem saber — e o que a transparência exige
Há três coisas importantes que estes documentos não nos contam:
1. O acordo parasocial. Quando há dois ou mais acionistas numa SAD, o normal é assinarem entre si um contrato privado chamado acordo parasocial. Esse contrato define quem manda nas decisões importantes (vetos sobre venda de jogadores acima de certo valor, nomeação do treinador, alterações ao estádio, distribuição de lucros, eventual venda do clube no futuro). Não há vestígio desse acordo no dossier de Chipre, e tipicamente um acordo destes não é público — é privado. Mas todos os indícios apontam para a sua existência.
2. O peso exato do clube-mãe hoje. Como já foi dito, a participação do Rio Ave Futebol Clube pode, e quase de certeza, que ficou abaixo dos 20% por força das injeções de capital sucessivas.
3. A reserva do auditor. O auditor da RAH escreveu, em letra miudinha mas decisiva, que não conseguiu validar o valor de €15,86 milhões com que a participação no Rio Ave aparece registada. Ele aceitou os números, mas com a ressalva de que não teve forma de verificar se aquele valor reflete a realidade do clube. Isto pode ser apenas uma questão técnica de acesso à documentação portuguesa. Pedir contas ao auditor, ou olhar para as contas portuguesas da SAD, seria meio caminho andado para perceber o que está em causa.

