Crónica · Opinião
A arte de dizer muito sem dizer nada
Três épocas, três desculpas, zero compromissos.
Há líderes que comunicam. Há líderes que informam. Há líderes que prestam contas. E depois há os que aparecem, de vez em quando, perante os jornalistas, dizem umas palavras reconfortantes e voltam ao silêncio — até à próxima ocasião em que o protocolo os obriga a falar.
Alexandrina Cruz enquadra-se, infelizmente, nesta última categoria.
No aniversário do clube, a presidente do Rio Ave FC voltou a falar. Deu umas declarações aos jornalistas presentes. E voltou a fazer aquilo que faz melhor: não dizer nada de concreto, com uma fluência assinalável.
Sempre para os jornalistas. Nunca para os sócios.
Comecemos pelo mais básico: quem são os sócios do Rio Ave FC? São, em teoria, os donos do clube.
Pois bem. Em toda esta época — uma época marcada, segundo a própria presidente, por "muitos contratempos" — quantos pontos de situação receberam os sócios? Quantas mensagens diretas de quem lidera o clube?
Nenhum. Zero. O silêncio absoluto, interrompido apenas quando há câmaras e microfones de jornalistas à frente.
Não existe um único registo em que a presidente do Rio Ave se dirija diretamente aos sócios para explicar o que está a acontecer. Num mundo em que qualquer clube de dimensão média tem canais de comunicação próprios, o Rio Ave continua a tratar os seus sócios como figurantes.
Comunicar apenas com jornalistas não é transparência. É gestão de imagem. São coisas muito diferentes.
Três épocas, três desculpas
Mas o que realmente impressiona — no mau sentido — é a consistência. Alexandrina Cruz leva três temporadas à frente do clube e, em cada uma delas, encontrou um argumento para explicar os resultados aquém do esperado. Com uma regularidade quase admirável.
1.ª época
"Ano zero." Estávamos num processo de reestruturação. Era preciso ter paciência. A base estava a ser construída.
2.ª época
"Ano zero da SAD." E além disso, a tempestade Martinho. Ninguém podia prever. Foram circunstâncias excecionais.
3.ª época (atual)
"Muitos contratempos." A pré-época foi fora de casa, as obras no estádio atrapalharam tudo. O que é que havia de fazer?
Três épocas. Três justificações distintas. Nenhuma autocrítica. Nenhum objetivo falhado assumido. Nenhum compromisso para o futuro com data ou métrica.
Há um padrão aqui que não pode ser ignorado: existe sempre uma desculpa pronta. E quando existe sempre uma desculpa pronta, deixa de ser uma desculpa e passa a ser uma estratégia.
A linguagem do não-compromisso
Analisemos as declarações do aniversário com algum cuidado. A presidente disse que o objetivo passa por aproximar o Rio Ave das competições europeias, "num curto prazo". Disse que não desistem da estratégia. Disse que estão a trabalhar para isso.
Façamos as perguntas óbvias que nenhum jornalista fez — ou pôde fazer num ambiente controlado:
- Curto prazo — o que significa isso? Um ano? Dois? Três? Quando é que os sócios podem exigir resultados?
- "Muitos contratempos" — quais, exatamente? Para além das obras e da pré-época, o que correu mal? Quem falhou? O que vai mudar?
- "Não desistimos da nossa estratégia" — qual estratégia? Está escrita algures? Foi apresentada aos sócios? Tem indicadores de sucesso definidos?
Sem respostas a estas perguntas, as declarações da presidente valem o que valem: nada. São palavras ditas para consumo mediático imediato, sem qualquer consequência ou responsabilização futura.
Um bom líder faz o contrário: diz "queremos terminar entre os seis primeiros na próxima época". Diz "até ao final do ano, os sócios vão receber um relatório de atividade". Diz "assumimos que esta época ficou aquém e aqui está o que vai mudar". Compromete-se com algo verificável. Algo que, se não acontecer, o responsabilize.
Generalidades não responsabilizam ninguém. E é exatamente isso que as torna tão convenientes.
Liderança ou representação?
Há uma questão que se impõe, e que cada vez mais sócios colocam em voz baixa: quem manda realmente no Rio Ave?
Um líder que não comunica, que não se compromete, que tem sempre uma justificação ensaiada e que aparece apenas em contextos protocolares pode ser, simplesmente, um mau comunicador. Pode ser alguém com dificuldade em lidar com a exposição pública. Damos esse benefício da dúvida.
Mas pode também ser outra coisa: alguém que não decide. Alguém que assina, representa e aparece nas fotos — mas cujas decisões reais são tomadas noutro lugar, por outras pessoas, longe dos holofotes e fora do alcance dos sócios.
Se for assim, faz todo o sentido não se comprometer com nada. Porque comprometer-se implicaria poder para cumprir. E se o poder não está onde deveria estar, a única saída segura é... falar de forma vaga. Sorrir. Dizer que estão a trabalhar. E esperar que ninguém faça as perguntas certas.
Os sócios do Rio Ave merecem mais do que isto. Merecem uma liderança que os trate como parceiros e não como audiência. Que comunique nos bons e nos maus momentos — e não apenas quando há câmaras. Que diga "falhámos aqui, vamos mudar isto", em vez de procurar sempre a desculpa de serviço.
Três épocas. Três desculpas diferentes. Mas a mesma ausência.
Até quando?
A formatação deste texto foi auxiliada pelo Claude.
