Quem acompanha a minha escrita sabe que nutro um gosto especial pela modalidade de futsal. Não é um interesse recente, nem circunstancial. Apesar de não conseguir marcar presença em todos os jogos, acompanho a equipa com regularidade há várias temporadas, com atenção, envolvimento e, acima de tudo, preocupação.
Fui um dos sócios que, em assembleia geral, fez questão de lembrar uma antiga direção de que o futsal não poderia simplesmente ser eliminado sem que os sócios se pronunciassem. Acompanhei a modalidade em todos os seus ciclos: desde o terceiro lugar na Primeira Divisão, passando pelas épocas mais duras que nos empurraram até à Terceira Divisão, até às temporadas mais recentes que culminaram no regresso ao escalão máximo.
É precisamente por este percurso — vivido de perto — que acompanho o futsal do Rio Ave com especial cuidado. E apesar de reconhecer que, no plano estritamente desportivo, a equipa sénior atravessa atualmente uma fase muito positiva, não consigo olhar com total tranquilidade para o caminho que está a ser trilhado pela atual direção.
No início da temporada, aquando da apresentação do orçamento em assembleia geral — cerca de 600 mil euros — escrevi que, com esse nível de investimento, seria expectável que o Rio Ave lutasse por um lugar no Top-8 do campeonato. A realidade veio confirmar essa análise e tudo indica que esse objetivo está perfeitamente ao alcance.
Assistimos a uma grande reformulação do plantel no início da época, algo perfeitamente normal após uma subida de divisão. Agora, nesta reabertura de mercado, voltamos a ver a direção apostar em reforços de qualidade, elevando ainda mais o nível competitivo da equipa sénior. Nada contra esse investimento. Pelo contrário: é positivo ver uma equipa ambiciosa e capaz de competir.
Ainda assim, não posso deixar de notar que este esforço financeiro parece assente, em grande parte, em receitas extraordinárias. E isso levanta uma questão inevitável: o que acontece se, por qualquer motivo, essas receitas deixarem de existir?
O problema maior, contudo, não está na equipa sénior. Está na falta de visão estrutural. A aposta é claramente de curto prazo e praticamente exclusiva na equipa principal. As camadas jovens continuam sem um projeto consistente, sem planeamento e sem uma estratégia que permita, a médio prazo, alimentar o plantel sénior com talento formado em casa.
Hoje, o clube vive essencialmente do que a comunidade vilacondense — leia-se, os pais — consegue oferecer. Não existe um plano que permita, daqui a alguns anos, termos um plantel sénior complementado, pelo menos em parte, por jogadores formados no clube.
Olhando para o quadro competitivo da formação, o cenário é, sem rodeios, pouco digno da dimensão do Rio Ave FC. Ao contrário do que acontece com uma das maiores referências formativas da cidade — o Caxinas — nenhuma das nossas equipas compete em campeonatos nacionais. Opta-se por manter equipas nos campeonatos distritais, chegando ao ponto de uma delas disputar a segunda distrital.
Já escrevi sobre este tema no passado e, honestamente, tinha esperança de que ao longo dos três anos deste mandato a situação fosse sendo corrigida. Até agora, isso não aconteceu. A opção tem sido pelo caminho mais fácil: investir dinheiro na equipa sénior, garantindo competitividade imediata, sem enfrentar o trabalho mais duro, exigente e demorado que é reorganizar e valorizar a formação.
Esse trabalho é, sem dúvida, mais complexo. Mas não tenho dúvidas de que os frutos colhidos seriam mais sólidos, mais sustentáveis e mais duradouros.
O Rio Ave tem história, dimensão e responsabilidade para fazer melhor. O presente é animador. Mas o futuro constrói-se com bases — e essas continuam, infelizmente, por lançar.
