Três anos depois, hora de prestar contas.
Alexandrina Cruz anunciou a 9 de outubro que se recandidata à presidência do Rio Ave Futebol Clube nas eleições de novembro. A cerca de um mês do ato eleitoral, os sócios continuam sem saber em que dia vão votar: a data ainda não foi marcada, mas a candidata já está em campanha. Quem está no cargo já se apresentou. Quem quiser concorrer contra Alexandrina Cruz continua sem saber quanto tempo tem para organizar uma candidatura. Antes de votarmos, convém olhar para o que fez, e não só para o que agora promete.
Pela responsabilidade na situação financeira a que o clube chegou.
Antes de ser presidente, Alexandrina Cruz foi durante anos a responsável pela área financeira do clube. Ela própria disse que era “apenas a diretora financeira”. A SDUQ teve um resultado negativo de cerca de 6 milhões de euros em 2021/22 e de 7,8 milhões em 2022/23. Na AG de outubro de 2023, o passivo foi apresentado em cerca de 13 milhões. Não se pode ser parte da gestão que conduziu a isto e apresentar-se depois como a solução sem prestar contas.Por recusar, mais de uma vez, uma auditoria às contas. Em agosto de 2023, três sócios pediram por carta aberta uma auditoria financeira às contas do clube e da SDUQ. Em outubro, a Presidente recusou por escrito, alegando que essa vontade “não é partilhada por um número significativo de associados, muito menos pela sua maioria”. Na AG desse mês acrescentou outro argumento: uma auditoria naquela fase seria prejudicial às negociações com investidores. O próprio Conselho Geral (sei-o porque falei com elementos do Conselho Geral) pediu uma auditoria forense em setembro de 2023 e recebeu a mesma resposta. Quem não tem nada a esconder não precisa de recusar que se olhe para as contas.
Pela SAD e pela forma como foi feita. A 19 de novembro de 2023 os sócios aprovaram a constituição da SAD e a entrada de Evangelos Marinakis com 20,5 milhões de euros, em troca de 80% do capital. A votação fez-se na mesma assembleia em que o projeto foi apresentado, sem sessão de esclarecimento prévia. Os estatutos da SAD só se conheceram em julho de 2024, oito meses depois. Em 2024/25 a SAD teve um prejuízo superior a 19 milhões de euros, capital próprio negativo e um passivo perto dos 30 milhões. Em dezembro de 2025 afastou dezenas de funcionários e colaboradores sem uma explicação aos sócios.
Pela acumulação de cargos, agora com funções executivas. Desde outubro de 2025 é ao mesmo tempo presidente do Clube e presidente do Conselho de Administração da SAD, a mesma sociedade cuja venda da maioria do capital ela própria conduziu. Nessa altura, a SAD apresentou-a como “Presidente e Administradora Executiva”, e na AG de junho de 2026 ela própria confirmou ter poderes executivos. Deixou de ser uma figura simbólica: é quem gere, no dia a dia, a entidade que paga renda ao Clube e explora o seu património. Os estatutos da SAD preveem remuneração para os administradores executivos, e os sócios não sabem se recebe nem quanto. Quando a SAD quer pagar menos de renda ou usar mais terrenos, quem negoceia do lado do Clube é a mesma pessoa. Isso não é negociação, é uma decisão tomada sozinha.
Pela forma como Henrique Maia foi afastado. Em junho de 2025, Henrique Maia, presidente-adjunto e representante dos sócios na SAD, demitiu-se da Direção invocando “divergências de opinião”, mas quis manter-se na SAD. A Direção e o presidente da Mesa da AG não informaram os sócios nem se pronunciaram publicamente, apesar de ele ter dado anos de serviço ao clube. A Mesa entendeu que a saída da Direção implicava também a saída da SAD. Na AG extraordinária de julho, 150 sócios votaram a destituição, contra 16, e o lugar de representante dos sócios passou a ser ocupado por um membro da Direção. Henrique Maia também nunca explicou publicamente o que se passou, mas os sócios perderam a única voz independente que tinham na SAD.
Pelo plano desportivo: quatro treinadores e nenhuma evolução. Desde que foi eleita, o Rio Ave teve quatro treinadores:
- Luís Freire (de 2021/22 até novembro de 2024). Subiu o clube de divisão e garantiu duas manutenções. Foi despedido em novembro de 2024, ao fim de 10 jornadas e apenas 2 vitórias, menos de seis meses depois de a SAD entrar em funções. Em dezembro explicou em A Bola: “Quando se mudam 20 jogadores não são só opções do treinador”. Mais tarde disse que, com a SAD, “os jogadores são escolhidos pelo scouting”, “com o propósito de serem vendidos como ativos”.
- Petit (novembro de 2024 a maio de 2025). Teve um contrato de apenas oito meses, desenhado para garantir a manutenção, e garantiu-a.
- Sotiris Silaidopoulos (junho de 2025 a outubro de 2026). Veio do Olympiakos, outro clube de Marinakis. Em 41 jogos oficiais teve 9 vitórias, 13 empates e 19 derrotas. Em 2025/26 terminou em 12.º lugar, com 36 pontos, e o Rio Ave foi eliminado da Taça de Portugal pelo Sintrense, do Campeonato de Portugal. Esta época saiu ao fim de sete jornadas, com uma vitória e o Rio Ave em 16.º lugar.
- Vasco Seabra (desde outubro de 2026). A SAD pagou ao Arouca uma cláusula de 1 milhão de euros.
A última mudança, tal como a decisão de manter Sotiris em fevereiro de 2026, aconteceu já com Alexandrina Cruz à frente da SAD.
Na era SAD, o Rio Ave terminou em 11.º (37 pontos), 11.º (38 pontos) e 12.º (36 pontos). Os golos sofridos passaram de 43 para 59 e depois para 57. Desde janeiro de 2024 entraram cerca de 67 jogadores entre contratações e empréstimos. O número é aproximado e dá perto de 22 por ano. Só houve duas vendas relevantes: André Luiz e Clayton, ambos para o Olympiakos. Segundo o Transfermarkt, o valor do plantel caiu de 53,4 para 43,6 milhões de euros nesta época. Muitos jogadores, muitos salários, nenhuma subida de patamar.
Pelos processos judiciais. Um relatório de crédito da Infotrust, de 22 de maio de 2026, identifica 43 ações judiciais contra a Rio Ave SAD nos últimos cinco anos, num valor global reclamado de cerca de 2,9 milhões de euros. Desse total, 24 ações (969 mil euros) entraram em 2025 e 5 ações (982 mil euros) nos primeiros meses de 2026. O mesmo relatório classifica o risco de crédito da SAD como “Elevado”.
Depois disso, entraram pelo menos mais quatro ações contra a SAD: duas em julho, movidas por uma empresa e por uma agência de jogadores; uma de Theofanis Bakoulas, jogador do Olympiakos, por acidente de trabalho; e uma de cerca de 229 mil euros, entrada em setembro. Em abril de 2026 tinha entrado uma de quase 810 mil euros, movida pela Us11. Em janeiro de 2025, a Puma reclamou 81.370 euros ao Clube e à SAD em conjunto. Em setembro de 2025, a FIFA condenou a SAD a pagar cerca de 60 mil euros em bónus em atraso ao jogador Aziz.
Um processo não prova que quem processa tenha razão. Mas a Presidente garantiu que o investidor resolveria os casos pendentes, e o que se vê é o número de ações a aumentar, com o nome do Rio Ave nos tribunais quase todos os meses.
Pela falta de transparência ao longo de todo o mandato. Na AG ordinária de outubro de 2025, pela primeira vez, não foi dada informação sobre as contas da SAD. Ficou-se a saber apenas que havia 19 milhões de prejuízo. Quando um sócio pediu em AG mais comunicação, a resposta foi que o clube não era um blog. Nesta época não houve uma única mensagem da Presidente dirigida diretamente aos sócios. Falou sempre por intermédio de jornalistas.
Pelo incumprimento dos estatutos e pelo silêncio da Mesa da Assembleia Geral. O artigo 116.º dos estatutos manda fazer a renumeração dos sócios de cinco em cinco anos. A última foi feita em 2019, por isso devia ter acontecido até 2024. Em 2025 o clube gastou dinheiro a trocar todos os cartões e não aproveitou para renumerar. Vários cartões até saíram com erro no código de barras. Em junho de 2025, a Direção disse que a renumeração só avançará com a nova bancada. Ao presidente da Mesa da Assembleia Geral, Amândio Couteiro, cabe ser o garante dos estatutos e dos direitos dos sócios nas assembleias. Não lhe conheço uma iniciativa para fazer cumprir esta regra, nem para obrigar a Direção a responder às perguntas que ficam sem resposta, AG após AG. Uma Mesa que não exige à Direção o cumprimento dos estatutos falha precisamente na função para que foi eleita.
Pelas promessas que voltam a ser promessas. A nova bancada nascente foi anunciada em maio de 2024 como “paga pelo investidor até final de 2028”. Foi reafirmada em outubro de 2025. Volta agora a ser bandeira de campanha, com data para 2028, junto com um mini-estádio, uma residência de atletas e um museu. Em três épocas, o objetivo cumprido foi a manutenção. Os resultados abaixo do esperado tiveram sempre uma justificação: o “ano zero”, a tempestade Martinho, os “contratempos”.
Do lado positivo, as novas instalações. É justo reconhecê-lo. Em julho de 2025 a Câmara de Vila do Conde doou ao clube cerca de 17 mil m² de terreno a norte do complexo desportivo. Ali nasceu o novo edifício de apoio ao futebol profissional, atrás da baliza norte, com balneários, ginásio, salas de reunião e auditório. Em agosto de 2026 foi elogiado pelo presidente da FPF. A obra é paga pelo investidor e chegou meses depois do prazo anunciado, mas é património que fica para o clube. Não substitui, porém, as contas que continuam por prestar aos sócios.
Nas últimas eleições dei a Alexandrina Cruz o meu voto de confiança. Acreditei que quem conhecia o clube por dentro saberia corrigir o caminho e prestar contas aos sócios.
Pelo que fica exposto neste texto, não consigo considerar positiva a sua presidência. Não lhe peço que seja perfeita. Peço-lhe que preste contas, que cumpra os estatutos e que seja transparente. Sinceramente, mais uma vez, sinto que isso não aconteceu.
Assim, desta vez, não lhe darei o meu voto nem o meu apoio. Na ausência de outras candidaturas credíveis, assumo publicamente que o meu voto será em branco, como protesto. Se surgirem outras candidaturas, irei com certeza considerá-las.
PS: A avaliação de um mandato não se faz só pelas contas e pelos resultados. Faz-se também pelas pessoas que o clube escolhe e pelas que deixa sair. Nestes três anos, a estrutura do Rio Ave mudou quase por completo, muitas vezes sem que os sócios soubessem quem saiu, porquê e quem entrou. Amanhã, quinta-feira, publico um levantamento, uma lista enorme de saidas e entradas, não perca: “A dança das cadeiras”.







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