Sou ouvinte assíduo do podcast Investidor Inteligente, que quinzenalmente, à quarta-feira, publica um novo episódio dedicado a temas de economia, investimentos e análise de negócios excecionais. No episódio desta semana, o tema foi “Investir ou apostar: a ilusão do ganho fácil”, e confesso que fiquei particularmente impressionado com alguns dos dados apresentados logo na introdução.
Durante os primeiros minutos, falaram sobre a realidade portuguesa no que diz respeito a jogos de sorte, apostas online e à crescente normalização deste tipo de hábitos. E os números são, no mínimo, surpreendentes: em média, cada português gasta cerca de 184 euros por mês em jogos de azar e apostas online. No total, estamos a falar de cerca de 21 mil milhões de euros por ano, um valor que, segundo foi referido no episódio, corresponde a aproximadamente oito vezes mais do que Portugal gasta em defesa.
Quem lê regularmente o Reis do Ave sabe que este não é um blog de literacia financeira, nem é habitual eu escrever sobre economia. Por isso, é legítima a pergunta:
porque estou eu a falar disto aqui?
A resposta surgiu precisamente no final do episódio. Ao ouvir estes números, dei por mim a pensar na crescente presença das casas de apostas no futebol profissional, algo que se tornou praticamente inevitável nos últimos anos. Cada vez mais clubes têm este tipo de empresas como patrocinador principal, e o Rio Ave não é exceção, tendo atualmente como sponsor a Lebull (Main Sponsor).
Foi então que surgiu a curiosidade:
quanto dinheiro apostam realmente os portugueses no futebol?
como tem evoluído esse valor ao longo dos anos?
e, já agora, quantas equipas do futebol profissional português são patrocinadas por casas de apostas?
quem são os principais beneficiários deste vício?
É sobre isso que vou escrever neste artigo. E os números, como veremos, ajudam a perceber melhor o futebol que temos hoje.
Para tentar perceber melhor até que ponto as casas de apostas estão presentes no futebol português, comecei por fazer um exercício simples: visitar os sites oficiais das 18 equipas da Primeira Liga e verificar quais os patrocinadores principais de cada clube.
O resultado é bastante esclarecedor.
Das 18 equipas do campeonato, apenas quatro não têm qualquer casa de apostas como patrocinador: Arouca, AFS, Nacional e Tondela. Ou seja, em 14 dos 18 clubes, existe ligação direta a empresas de jogo, apostas ou casino online.
Entre todas, a marca mais presente é a Placard, que patrocina quatro equipas: Famalicão, Vitória, Moreirense e Alverca. Isto não significa necessariamente que seja a que investe mais dinheiro, mas é claramente a que tem maior número de parcerias no campeonato.
Logo a seguir surge a Betano, associada a três dos maiores clubes portugueses — FC Porto, Sporting e Benfica — o que demonstra também a dimensão financeira deste tipo de acordos.
Com duas equipas patrocinadas aparecem depois várias marcas. A Lebull, que é atualmente patrocinadora do Rio Ave e do Santa Clara, a Solverde, ligada ao Braga e ao Estoril, e ainda a ESC Online, presente no Casa Pia e no Estrela da Amadora.
Por fim, há ainda o caso do Gil Vicente, que tem como patrocinador a Goldenpark.pt, outra plataforma ligada ao jogo online.
Olhando para este quadro, percebe-se que a presença das casas de apostas no futebol português deixou de ser exceção para passar a ser regra. E isto levanta inevitavelmente uma questão: será coincidência que, ao mesmo tempo que os portugueses gastam cada vez mais dinheiro em apostas, os clubes têm cada vez mais casas de apostas a patrocinarem-nos?
É isso que vamos tentar perceber a seguir.
A entidade reguladora do jogo em Portugal é o Turismo de Portugal.
Antes de entrar nos números mais concretos, importa esclarecer que a atividade do jogo em Portugal está dividida em duas grandes áreas distintas: por um lado, os Jogos de Fortuna ou Azar, onde se incluem por exemplo raspadinhas e o euromilhões, e por outro as Apostas Desportivas à Cota, ou seja, apostas feitas sobre resultados de eventos desportivos, como jogos de futebol.
Esta distinção é importante porque, quando se fala dos valores globais do jogo em Portugal, a maior fatia não vem necessariamente das apostas desportivas, mas sim dos jogos de fortuna ou azar. Ainda assim, mesmo olhando apenas para as apostas desportivas, os números são muito elevados e ajudam a perceber porque é que este setor tem hoje tanta presença no futebol profissional e como cresce de ano para ano.
Se olharmos para o valor total apostado em Portugal nos últimos anos, a evolução é clara.
Em 2021, o montante apostado rondou os 8,5 mil milhões de euros.
Em 2022, subiu para cerca de 11,4 mil milhões.
Em 2023, voltou a crescer para aproximadamente 15,5 mil milhões de euros.
Em 2024, o valor atingiu cerca de 20,8 mil milhões.
E em 2025, apesar de ainda faltarem apurar os números do último trimestre, o valor já ronda os 16,7 mil milhões, com a média anual a indicar que o total final deverá voltar a ser muito elevado.
Ou seja, em poucos anos, o montante apostado em Portugal praticamente duplicou, o que ajuda a explicar porque é que este setor se tornou tão relevante em termos económicos.
Se isolarmos apenas as apostas desportivas à cota, os valores são naturalmente mais baixos, mas continuam a ser impressionantes.
Em 2021, foram apostados cerca de 1,4 mil milhões de euros.
Em 2022, o valor subiu para aproximadamente 1,5 mil milhões.
Em 2023, chegou aos 1,7 mil milhões.
Em 2024, aproximou-se dos 2 mil milhões de euros.
E em 2025, mesmo com dados ainda incompletos, já se apostou cerca de 1,5 mil milhões, com tendência para voltar a crescer.
Estes números ajudam a perceber uma coisa essencial: as casas de apostas não aparecem no futebol por acaso.
Aparecem porque existe muito dinheiro neste setor, cada vez mais.
E onde há muito dinheiro, há inevitavelmente clubes disponíveis para estabelecer parcerias.
Se olharmos apenas para o segmento das apostas desportivas à cota, o crescimento também é evidente e acompanha a crescente presença deste setor no futebol profissional. Em 2021, o valor apostado rondava os 1,4 mil milhões de euros, subindo para cerca de 1,5 mil milhões em 2022 (um aumento de aproximadamente 7%). Em 2023, o montante voltou a crescer para cerca de 1,7 mil milhões, o que representa uma subida na ordem dos 13% face ao ano anterior. Em 2024, o valor aproximou-se dos 2 mil milhões de euros, registando novo crescimento, desta vez próximo dos 15%, atingindo o ponto mais alto dos últimos anos. Já em 2025, apesar de ainda não estarem fechados todos os dados, os números disponíveis apontam para cerca de 1,5 mil milhões até ao momento, sendo expectável que o valor final volte a aproximar-se dos registos mais elevados quando o ano estiver totalmente apurado.
Ou seja, mesmo olhando apenas para as apostas desportivas, percebe-se que estamos perante um mercado que tem crescido de forma consistente ao longo dos últimos anos, com subidas sucessivas e significativas. Este aumento ajuda a explicar porque razão tantas equipas da Primeira Liga têm hoje casas de apostas como patrocinador principal: há cada vez mais dinheiro neste setor, e o futebol tornou-se um dos principais veículos para o promover.
Um dos problemas nesta análise que estou a fazer é a falta de relatórios anuais consolidados o que dificulta a comparação direta entre anos completos. Ainda assim, os relatórios permitem retirar algumas conclusões relevantes.
No relatório mais recente disponível, relativo ao 3.º trimestre de 2025, há um dado particularmente interessante: 71,8% do valor apostado nas apostas desportivas à cota em Portugal teve origem em apostas relacionadas com futebol. Este número confirma aquilo que todos intuíamos — o futebol é, de longe, o principal motor deste mercado.
Outro indicador relevante é o número de jogadores registados nas entidades exploradoras que disponibilizam apostas desportivas à cota e jogos de fortuna ou azar. No final do 3.º trimestre de 2025, o total situava-se em 4.937 milhões jogadores, quando no período homólogo do ano anterior eram 4.793 milhões, o que representa um crescimento de cerca de 3% num ano.
Também o perfil etário ajuda a perceber a dimensão social do fenómeno. Entre os novos jogadores registados, 78,8% tinham menos de 45 anos, o que demonstra que estamos perante uma atividade com forte adesão nas faixas etárias mais jovens e ativas.
Importa ainda referir que, destes 4 937,7 mil registos existentes, 1 130,3 mil jogadores realizaram pelo menos uma aposta durante o 3.º trimestre de 2025, o que mostra que uma parte significativa dos utilizadores não está apenas registada, mas participa efetivamente neste tipo de plataformas.
Em termos geográficos, os dados mostram também uma forte concentração nas áreas mais populosas do país. No final do 3.º trimestre de 2025, Lisboa e Porto destacavam-se como os distritos com maior número de registos de jogadores, representando 21,8% e 21,0% do total, respetivamente.
Todos estes números ajudam a perceber melhor porque é que as casas de apostas têm hoje tanta presença no futebol profissional. O mercado continua a crescer, o futebol representa a maior fatia das apostas e o número de utilizadores mantém tendência de subida. Num contexto destes, torna-se mais fácil compreender porque razão tantas equipas dependem deste setor para financiar a sua atividade.
Mas o proveito desta dependência não se limita aos clubes que têm casas de apostas como patrocinador direto.
O futebol português, no seu todo, recebe verbas significativas provenientes do Imposto Especial sobre o Jogo Online (IEJO), um imposto aplicado às entidades que exploram apostas e jogos de fortuna ou azar em Portugal. Parte dessa receita é distribuída pela Federação Portuguesa de Futebol e pela Liga Portugal, o que significa que todo o ecossistema do futebol profissional acaba, de forma direta ou indireta, por beneficiar deste setor.
Em 2023, estas só a federação e a Liga receberam cerca de 36,1 milhões de euros provenientes do IEJO.
Em 2024, o valor situou-se na ordem dos 33,85 milhões de euros, sendo que aproximadamente 10,85 milhões foram atribuídos à Liga Portugal, ficando o restante montante na esfera da Federação.
Ou seja, mesmo os clubes que não têm casas de apostas como patrocinador acabam por estar inseridos num sistema que depende, em parte, do dinheiro gerado pelo jogo online.
A ligação é ainda mais evidente quando olhamos para a própria competição. O naming da principal divisão do futebol português pertence atualmente a uma casa de apostas, sendo a Betclic a patrocinadora oficial da Liga Portugal Betclic. Antes disso, já a Bwin tinha dado nome ao campeonato, o que mostra que esta relação não é recente — mas tem-se tornado cada vez mais forte.
E a dependência não termina aqui.
A receita arrecadada com o IEJO não fica apenas para a Federação ou para a Liga, que recebem apenas uma parte do total. O montante recolhido é distribuído por várias entidades públicas, incluindo o Turismo de Portugal, o Orçamento do Estado e o Fundo de Fomento Cultural, entre outros beneficiários previstos na lei.
Isto significa que o dinheiro gerado pelas apostas online alimenta não só o futebol, mas também outras áreas da atividade pública. E é precisamente por isso que este tema é mais complexo do que parece à primeira vista: não estamos apenas perante patrocínios em camisolas, estamos perante um sistema inteiro que, em maior ou menor grau, passou a depender das receitas do jogo.
