2.10.26

Quando foi que normalizámos isto?



Há dias deparei-me com fotografias de uma estação em Lisboa. Confesso que fiquei chocado.

Não porque estivesse degradada. Não porque estivesse vazia. Não porque tivesse problemas de segurança.

Fiquei chocado porque praticamente tudo o que os olhos alcançavam era publicidade a uma casa de apostas.

Escadas. Corredores. Passagens. Painéis. Mensagens gigantes em letras garrafais. A sensação que tive foi simples: não estava numa estação de comboios, estava dentro de um anúncio.




E isto levou-me a pensar numa questão que raramente discutimos.

Quando foi que aceitámos que o jogo passasse a estar presente em todo o lado?

Hoje somos bombardeados diariamente com publicidade às apostas. Está na televisão. Está nos telemóveis. Está nas redes sociais. Está nos estádios de futebol. Está nos equipamentos das equipas. Está nos programas desportivos. Está nas estações de serviço. E, pelos vistos, também ocupa estações inteiras de transporte público.

Não sou contra o setor das apostas.

É um mercado legal, regulado e que gera emprego, investimento e receitas fiscais. Mas uma coisa é aceitar a sua existência. Outra completamente diferente é aceitar a sua omnipresença.

O álcool é legal, mas a publicidade está sujeita a regras apertadas.

O tabaco é legal, mas a publicidade praticamente desapareceu do espaço público.

Com o jogo, parece que seguimos o caminho contrário.


O nosso clube, tem um acordo comercial exatamente com esta casa de apostas, promovendo também esta dependência.


                                                    (Foto retirada das redes sociais do Rio Ave)




Estamos a falar da banalização de um comportamento que pode gerar dependência, dificuldades financeiras e problemas familiares em milhares de pessoas.

Tal como aconteceu com o tabaco, talvez esteja na altura de a discussão deixar de ser "proibir ou permitir" e passar a ser "como regular".

Porque uma sociedade saudável não é aquela que proíbe tudo.

Mas também não é aquela que permite que tudo seja promovido sem limites.

As fotografias daquela estação de Lisboa fizeram-me pensar nisso.

Talvez o mais preocupante nem seja a quantidade de publicidade.

Talvez seja o facto de já quase ninguém estranhar vê-la e saber que os clubes portugueses estarem-se nas tintas para este problema porque beneficiam a desgraça da sua "audiência"