Há coisas que, por mais que se tente relativizar, já não dão para esconder. Uma delas é esta: a tão apregoada manutenção da identidade do clube com a entrada do novo investidor, repetida vezes sem conta por Alexandrina Cruz em Assembleias Gerais, está hoje pelas ruas da amargura.
Não só essa identidade não foi preservada, como foi diluída, descaracterizada e, em muitos momentos, simplesmente ignorada. O Rio Ave já não é visto como um clube com projeto próprio, com personalidade e com uma forma de estar distinta. Pelo contrário, começa a ser rotulado como “o novo Boavista”, um clube perdido entre promessas falhadas, instabilidade permanente e uma desconfiança generalizada sobre o futuro. Há quem já fale abertamente na descida de divisão — algo que, há poucas jornadas, pareceria impensável.
E dói. Dói porque muitos de nós ainda se lembram de um Rio Ave respeitado. Um Rio Ave simpático aos olhos do país. Um Rio Ave que, mesmo pequeno em dimensão, era grande em caráter. Um clube que conseguiu pôr Portugal inteiro a torcer por si contra o Elfsborg, contra o Milan, contra adversários bem mais poderosos, mas que nunca conseguiram roubar-nos a dignidade nem a alma.
Havia garra. Havia identidade. Havia um orgulho genuíno em vestir esta camisola. O Rio Ave era visto como um clube sério, bem gerido, competitivo dentro das suas possibilidades. Um exemplo. Hoje, infelizmente, já não é isso que transparece.
Em pouco mais de dois anos, conseguiu-se aquilo que parecia impossível: colocar em causa 86 anos de história. Não por falta de recursos mas por decisões erradas, silêncio cúmplice e uma subserviência constante a interesses que nunca foram — nem serão — os do clube.
O mais grave não é apenas perder jogos ou andar aflito na tabela classificativa. O mais grave é perder respeito. Perder identidade. Perder aquilo que nos diferenciava dos outros. Quando deixamos de ser “o Rio Ave” para passar a ser apenas mais um clube satélite, descartável, transitório, algo se quebrou de forma profunda.
A promessa era continuidade. O resultado é rutura. A promessa era identidade. O resultado é descaracterização. A promessa era crescimento sustentado. O resultado é desconfiança, medo e saudade.
Saudade de quando o Rio Ave era, simplesmente, o Rio Ave.