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4.2.26

Grupo39: Quando os limites são ultrapassados

O ano passado escrevi por diversas vezes sobre o grupo que explora o bar da Avenida em dias de jogo no Estádio dos Arcos e que, paralelamente, promove várias iniciativas positivas para a ligação entre os adeptos e o Rio Ave FC — o conhecido Grupo 39.

Na altura, essas crónicas surgiram não por implicância, mas porque existiam problemas reais: falhas associativas, ausência de eleições, incumprimento de estatutos e obrigações legais. Problemas esses que feriam a credibilidade de quem, querendo ou não, assumia um papel visível junto do clube e dos adeptos.

Acredito sinceramente que o facto de se ter escrito sobre isso contribuiu para que, a 6 de janeiro de 2025, fosse criada a Associação Cultural e Recreativa de Adeptos do Rio Ave, regularizando a situação e deixando para trás uma estrutura informal e ferida de legitimidade. Com essa formalização, o clube passou a poder estabelecer protocolos com uma associação real, legalmente constituída e com legitimidade para tal.

A partir desse momento, e precisamente por entender que o problema estrutural tinha sido resolvido, deixei de escrever sobre esta associação. A sua atividade prosseguiu, e apesar de não conhecer ao detalhe os protocolos existentes com o clube ou com a SAD, é evidente que algum tipo de entendimento existe — caso contrário não seria possível a exploração continuada do bar da Avenida, a organização de deslocações fora em articulação com o clube, ou a exploração da sede do Rio Ave em dias festivos como o São João.

Justamente por existir essa ligação, direta ou indireta, sinto-me agora na obrigação de voltar a escrever.

O que vi este fim de semana no Estádio dos Arcos é demasiado grave para ser ignorado.

Por duas vezes assisti a conflitos envolvendo elementos identificados como pertencentes a esta associação:

  • perto do final da primeira parte, entre dois elementos do próprio grupo;

  • e já mais perto do final do jogo, um confronto (não fisico) entre um elemento do grupo e outros associados, dentro do estádio.

Estas situações foram visíveis para muitos sócios e adeptos. Mais grave ainda, foi igualmente visível que os protagonistas destes episódios eram pessoas que representam — formal ou informalmente — esta associação. Não estamos a falar de adeptos anónimos ou de sócios comuns a perderem a cabeça num momento de tensão. Estamos a falar de pessoas que, de alguma forma, colaboram com o clube e beneficiam de uma relação privilegiada com o mesmo.
O facto da situação protagonizada por um responsável pelo grupo e um associado ter nascido de um equívoco (aquele não terá percebido o que estava a ser dito por este e qual era o objetivo) só aumenta o absurdo da situação

É inadmissível ver membros deste grupo a intimidar ou ameaçar outros associados. Se já é grave quando isso parte de um adepto sem qualquer responsabilidade ou representação, torna-se absolutamente intolerável quando vem de quem tem ligação direta ao clube.

Somos todos livres de ter opinião, de discordar, de tomar posições e até de criticar. O futebol vive dessa paixão. Mas há limites. E este fim de semana esses limites foram claramente ultrapassados.

Quando se representa uma associação de adeptos — ainda por cima uma associação com protocolos com o clube — exige-se mais responsabilidade, mais contenção e mais respeito. Não só pelo nome que se carrega, mas sobretudo pelo clube que se diz defender. Temos maus exemplos recentes que não queremos igual dentro de portas.

O Rio Ave não pode ser palco de intimidação entre os seus próprios sócios. E quem tem uma posição de destaque ou proximidade ao clube tem o dever acrescido de dar o exemplo.