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31.1.26

Sem rodeios: é tempo de chamar os bois pelos nomes




É natural que, em momentos de crise, o primeiro alvo seja o treinador. Acontece em todo o lado, faz parte do futebol e da sua lógica imediatista. Mas reduzir o estado atual do Rio Ave FC a uma questão meramente técnica é não só simplista, como injusto. O problema é bem mais profundo e tem nomes, decisões e um rumo claramente identificável.

Importa, por isso, recordar quem são os verdadeiros responsáveis por este percurso que, em pouco tempo, resultou na perda quase total da identidade e da mística que durante anos caracterizaram o nosso clube. A direção do Rio Ave FC, presidida por Alexandrina Cruz, não pode continuar imune à crítica, como se fosse apenas uma figura decorativa num processo que corre em piloto automático.

O Rio Ave que conhecíamos — competitivo, incómodo para os grandes, com uma ideia clara de jogo e uma ligação forte entre equipa, clube e adeptos — deu lugar a um emaranhado de decisões avulsas, falta de planeamento e uma gestão que parece viver permanentemente em reação, nunca em antecipação. Trocam-se treinadores, mudam-se jogadores, ajustam-se discursos, mas o essencial permanece intocado: a ausência de um projeto desportivo coerente.

A perda de identidade não acontece de um dia para o outro. É o resultado de escolhas sucessivas: contratações sem enquadramento, ciclos interrompidos precocemente, comunicação pobre e distante, e uma clara desvalorização do que fazia do Rio Ave um clube respeitado dentro e fora de campo. Hoje, somos um clube sem rosto, sem alma e, pior ainda, sem rumo visível.

Enquanto isso, a presidência mantém-se num silêncio ensurdecedor. Não há explicações, não há assunção de responsabilidades, não há uma palavra clara dirigida aos sócios e adeptos. Tudo parece normalizado, como se a mediocridade fosse agora o novo patamar aceitável. Não é.

Apontar o dedo ao treinador pode dar uma sensação momentânea de ação, mas não resolve nada. O problema está acima, na estrutura, na liderança e na visão — ou na falta dela. Um clube não perde a sua mística por causa de um treinador. Perde-a quando quem o dirige deixa de saber o que ele representa.



O Rio Ave FC merece mais. Merece transparência, ambição e respeito pela sua história. E isso começa, inevitavelmente, por quem está no topo.